Olivia Wilde leva “The Invite” e as feridas do casamento a San Sebastián

Penélope Cruz, Seth Rogen e Edward Norton juntam-se a Olivia Wilde numa releitura de Sentimental, de Cesc Gay, onde um jantar expõe desejos e ressentimentos conjugais.

A passagem esta noite por Donostia de The Invite (O Convite) leva ao Festival de San Sebastián uma das experiências mais singulares de Olivia Wilde na realização. Orçada em 12 milhões de dólares e já com 55,6 milhões amealhados nas bilheteiras, a comédia dramática chega ao certame basco sustentada por um quarteto de estrelas — Penélope Cruz, Seth Rogen, Edward Norton e a própria Olivia — numa trama em que o desejo, ressentimento e as frustrações conjugais explodem à volta de uma mesa de jantar.

Exercício de delicadeza de uma cineasta em evolução, vinda de Booksmart (2019) e Don’t Worry Darling (2022), The Invite amplia — e bastante — o espaço conquistado por Olivia para usar as ferramentas da realização em prol de um cinema adulto. A sua obra, alicerçada na palavra, apresenta geometrias próximas do teatro, concentrando-se em espaços fechados e em quiproquós morais. Aqui, tudo nasce de um jantar entre vizinhos no qual falta vinho e a comida não corresponde às restrições alimentares de uma das convidadas. Mas a verdadeira indigestão vem de outro lugar: os moradores do andar de cima fazem sexo ruidosamente, enquanto os anfitriões do piso inferior praticamente já não se tocam.

Em baixo vivem o professor de música Joe (Seth Rogen) e a mulher, Angela (Olivia Wilde), agora dona de casa, com uma filha de 12 anos que nunca vemos. No apartamento de cima estão a sexóloga espanhola Pina, interpretada por uma Penélope Cruz de cabelos louros, e o bombeiro Hawk, papel que encontra Edward Norton em estado de graça. No alicerce desta experiência sobre a necessidade de escutar o outro em tempos de ruído está um dos dramaturgos de maior fulgor do teatro popular espanhol das últimas décadas: o catalão Cesc Gay, artista que faz do quotidiano um campo de batalha.

«Escrever é saber dominar as caricaturas relativas às representações do excesso, seja o excesso de dor ou de euforia», explicou Cesc Gay numa entrevista ao C7nema realizada em 2020, quando levou ao Festival de San Sebastián Sentimental, adaptação cinematográfica da sua peça Els Veïns de Dalt, precisamente o texto que serviu de matriz para The Invite.

Pouco antes da pandemia, a peça encheu salas em Buenos Aires numa montagem protagonizada por Diego Peretti e continua a gerar novas encarnações. Existe uma versão belga, De Bovenburen, dirigida por Simone van Dusseldorp, e uma adaptação portuguesa, O Pecado Mora em Cima, de Rui Pedro Sousa, com Miguel Falabella e Marisa Orth.

Hoje com 59 anos, Francesc Gay i Puig alcançou uma das maiores projeções internacionais da carreira com Truman (2015), no qual um homem interpretado por Ricardo Darín, perante a proximidade da morte, conta com a ajuda de um amigo (Javier Cámara) para encontrar um novo lar para o seu cão. O filme arrecadou cerca de nove milhões de dólares e valeu a Cesc o Goya de Melhor Realização.

A estreia de Cesc Gay nas longas-metragens aconteceu em 1998, com Hotel Room, codirigido pelo argentino Daniel Gimelberg. Dois anos depois, levou ao cinema Krámpack e recebeu em Cannes o Prémio da Juventude pela abordagem ao amadurecimento. «Todo o assunto que é tabu precisa de ser visto numa dinâmica que equilibre riso e dor, sob os vínculos do companheirismo», afirmou o cineasta ao apresentar Historias para no contar (2022) em San Sebastián.

Essa combinação entre riso e ferida chega modificada a The Invite. A adaptação norte-americana começou a ser idealizada em 2022 e teria inicialmente Valerie Faris e Jonathan Dayton na realização, a partir de um argumento de Rashida Jones e Will McCormack, com Amy Adams, Paul Rudd e Tessa Thompson entre os nomes previstos para o elenco. Após três anos de desenvolvimento, Olivia Wilde assumiu o projeto para realizar e interpretar, trazendo consigo Seth Rogen, impulsionado pelo sucesso da série The Studio, além de Penélope Cruz e Edward Norton.

De The Studio vem ainda o diretor de fotografia Adam Newport-Berra, responsável por conferir uma elegância sinuosa a uma narrativa construída essencialmente sobre planos e contraplanos. A montagem de Yorgos Mavropsaridis e Ant Boys dá fluidez à engenharia de ressentimentos acumulados entre Joe e Angela ao longo de anos de indelicadezas e omissões. É nesse jogo de pequenas violências domésticas que o quarteto encontra a sua melhor matéria-prima.

Penélope encontra em Pina uma personagem que poderia facilmente escorregar para o arquétipo da latina sexualmente exuberante. A sua interpretação, porém, contorna o lugar-comum com sagacidade, transformando pequenos detalhes — entre eles uma discussão sobre a pronúncia da palavra «flan» — em combustível cómico. Norton cresce sobretudo através dos gestos, fazendo de Hawk um sedutor plácido capaz de transformar a vulnerabilidade num instrumento de aproximação. Rogen segue pelo caminho oposto: Joe é uma espécie de elo perdido da virilidade, um homem em queda, sufocado pela própria hipocrisia.

Se as discussões sobre desejo, masculinidade e identidade sexual ganhavam contornos mais abertamente cómicos em Sentimental, a releitura de Olivia Wilde prefere extrair delas uma camada mais dolorosa. A banda sonora de Devonté Hynes funciona como contraponto afetivo para essa erosão conjugal, culminando na utilização de Our House, de Crosby, Stills, Nash & Young.

É nesse momento que The Invite reafirma aquilo que existe de mais fértil na dramaturgia de Cesc Gay: quatro pessoas podem dividir uma mesa, comida e algumas garrafas e, ainda assim, permanecer a uma enorme distância umas das outras. Em Donostia, onde Sentimental passou há seis anos, a história regressa esta noite à casa que ajudou a projetar cinematograficamente o texto de Gay — agora falado em inglês e filtrado pelo olhar de Olivia Wilde.

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