Tudo o que imaginamos como luz’’ (All We Imagine As Light, 2024) é uma ficção realizada pela jovem realizadora indiana Payal Kapadia (38 anos). A realizadora traz para a tela do cinema uma visão feminina dos problemas sociais e cotidianos que enfrentam as pessoas na  Índia, através da narrativa da vida de duas enfermeiras e uma cozinheira de um hospital. Mulheres do interior que se mudaram para Mumbai em busca de uma vida melhor. Mumbai também chamada de Bombaim, o centro financeiro e a maior cidade do país, tem 21 milhões de habitantes.

As personagens construídas por Kapadia são mulheres fortes, resistentes, afetuosas, solidárias e, na medida do impossível, esforçam-se para tomar as rédeas da suas existências. 

Prabha (Kani Kusruti, 39 anos), Anu (Divya Prabha, 33 anos) e Parvaty (Chhaya Kadam), três excelentes interpretações. 

Mulheres que por necessidade migraram para a “cidade das ilusões”, como ouvimos num diálogo do filme. Ouvimos também: “Temos que acreditar na ilusão, para não enlouquecermos”. A necessidade da sobrevivência é mais forte do que as ilusões, do que as promessas vãs de uma grande cidade que poderia oferecer uma vida melhor do que aquela do interior.  

A cineasta, numa entrevista concedida ao C7NEMA, relata que a sua intenção ao fazer o filme era “abordar uma questão política e social através de histórias muito pessoais”.  Histórias que lhe foram contadas por amigos e familiares, acrescidas àquelas por ela ficcionalizadas. Na entrevista, ela também discorre sobre algo que me surpreendeu: Kapadia tem o hábito de carregar um gravador e registar conversas das pessoas pela cidade. Estética usual no cinema documentário, estilo de filmar que acompanha a realizadora desde o início da sua carreira até hoje. As vozes da rua  ouvimos  em paralelo as  imagens de Tudo o que imaginamos como luz’’, enquanto os habitantes de Mumbai transitam pela cidade, sendo a relação entre elas criada pelo espectador, e não necessariamente explicitada pela realizadora. Além disso, ouvimos os diálogos das personagens no ocupar das locações internas e externas que compõem o drama fílmico.

Cada país possui as suas particularidades e desafios próprios que podem dificultar a integração social, até mesmo dos seus habitantes originários. No filme, é nos dado a saber e ver alguns dos problemas rotineiros da Índia: o transporte público lotado, ruas inundadas de gente, jornadas de trabalho exaustivo e mal pago, moradias precárias, falta de planeamento familiar, mulheres presas as tradições impostas pela religião, pelo capitalismo e pelo patriarcado dominador. Mas vemos também a intimidade dos habitantes através das narrativas das mulheres-protagonistas. Ficção e documentário se misturam, a realidade é levada para a tela, e a invenção do que se vê na tela faz parte da vida. A cineasta tenta igualmente desvelar uma sociedade parca em direitos das mulheres e as suas escolhas afetivas na construção familiar, devido aos restritos costumes religiosos e regras sociais.

De acordo com a realizadora: ‘’Mumbai é uma daquelas cidades para onde vão as pessoas que saem do interior rural. Mesmo que seja uma mudança dentro do país, vemos as coisas como um ato de emigração. (…) Tens de negociar a vida nestes locais, aprender uma nova língua”.  Ela relata que cresceu em Mumbai e conhece bem o cotidiano e a realidade deste lugar. Tal mudança por ela mencionada, afeta a população e visivelmente a vida das personagens. Sobre a questão dos deslocamentos físicos e simbólicos inerentes à migração, uma das personagens diz: “Vivo em Mumbai há 23 anos, mas tenho sempre a sensação de ter que partir”.
Este estado de suspensão é algo que faz parte da vida de quem é migrante. Embora, neste caso, a migração se dê dentro do próprio país. 

Um médico do hospital em que também trabalham as três amigas Prabha, Anu e Parvaty, numa conversa com a enfermeira Prabha, declara que não se sente integrado socialmente por não saber falar hindu. Na Índia são falados cerca de 400 idiomas e dialetos, um país com 1,429 mil milhões de pessoas, vemos que a língua não é um fator unificador.

Com relação à personagem Prabha, ela é uma mulher solitária e carrega tristeza em sua face. Casou-se sem conhecer o marido (aqueles casamentos arranjados, prática ainda hoje comum no país) e está à espera do tal marido, que logo após o casamento migrou para a Alemanha em busca de trabalho numa fábrica. A esposa nada sabe da sua realidade. Um dia ela recebe um presente sem remetente, fabricado na Alemanha. Dessa forma lembra-se que o marido existe, e que é casada. Em Mumbai ela consegue atuar na profissão de enfermeira e ganha o seu próprio sustento. Profissão que  envolve cuidado e a cura das pessoas, mas ela é incapaz de cuidar de si, diante da solidão e desilusão que permeiam o seu ser. Não escolheu se casar, foi obrigada, e a sua vida está ATADA a um relacionamento não consumado, ausente, distante, silencioso e impossível. E, sobretudo, é obrigada a suportar uma imposição social, uma vez que sendo casada, de acordo com as leis e regras da sociedade indiana, não pode se envolver com outro homem. Ainda que o seu marido não tenha sido uma escolha sua e que nunca tenha vivido com ela.

A personagem Anu, das três mulheres, é aquela mais corajosa e libertária, dentro dos limites sociais de uma cultura conservadora e tradicional que cerceia seus desejos. Trabalha muito e ganha um salário que mal dá para comer, divide um pequeno, simples e claustrofóbico apartamento com a amiga Prabha. Ela não deseja casar, foge e rejeita a pressão familiar que quer lhe arranjar um casamento com um desconhecido, tentando driblar os problemas da tradição. Tem encontros com um jovem rapaz mulçulmano, às escondidas da sua família que vive no interior.

O peso da tradição na Índia parece afetar até mesmo os homens, pois Shiaz, o namorado de Anu, também teme apresentá-la à sua família, uma vez que ela não é muçulmana. Pelo contrário, ela é bastante moderna e ousada para os olhares conservadores.

Parvaty, a terceira das personagens principais do filme, é amiga de Prabha e Anu. Dedicou anos como cozinheira do Hospital, mas está prestes a perder a casa onde mora. Não suportando mais a vida difícil em Mumbai, acaba por ir embora rumo à zona rural de Ratnagiri, retornando a sua aldeia de origem. 

Prabha é solidária com Anu, até mesmo ajuda-a a pagar a renda mensal do apartamento onde vivem, pois o salário da amiga não basta para as suas necessidades básicas. Anu, no seu trabalho no Hospital, ensina mulheres com muitos filhos a tomar a pílula anticoncetiva, sem que os maridos saibam. As três amigas se apoiam e defendem uma a outra das adversidades, expressando cuidado, afetividade, empatia e acolhimento entre elas. Mulheres entre 30 e 50 anos que não têm filhos e são as provedoras de si mesmas, não há homens que as sustentam ou conduzem as suas escolhas (pelo menos as escolhas profissionais). Como disse Maya Angelou: “Todas as vezes que uma mulher se defende, sem nem perceber que isso é possível, sem qualquer pretensão, ela defende todas as mulheres.” É preciso que nós mulheres estejamos cada vez mais ao lado umas das outras.

Numa sociedade onde é mais comum as mulheres viverem para cuidar dos filhos, acho interessante esta imagem que a cineasta dá a ver das mulheres atuais do seu país. Como ela declara: “Importava-me mostrar que as mulheres podem ser financeiramente independentes no meu país. Com isso têm acesso a outras decisões, como no amor”. Apesar de que, das três protagonistas do filme, apenas uma delas, Anu, consegue desenhar o amor que almeja atingir, um amor escolhido por ela e não pelos pais.

Entre as  imagens intimistas das personagens e aquelas da cidade, travellings horizontais agitados atravessam a multidão que vem e vai sem cessar, cada pessoa tentando traçar ou simplesmente seguir um destino que lhes é imposto. 

As cenas internas da casa onde vivem Prabha e Anu são pouco iluminadas, acentuando assim a precariedade do ambiente onde vivem. E os planos mais fechados colaboram para expressar o espaço reduzido do pequeno apto. Já as cenas externas de Mumbai são filmadas em planos abertos e longos travellings horizontais, uma câmara que age inquieta como o caos da metrópole indiana. 

A segunda parte do filme se passa numa aldeia marítima da região de Ratnagiri. A realizadora escolhe um grande plano do mar como transição da vida pesada e agitada para a calmaria de uma pequena aldeia. Se em Mumbai a cineasta opta por um tom mais escuro e azulado, já na segunda parte do filme a luz permeia tons amarelo-ocre e vermelho.  Segundo ela, isto não apenas tem a ver com as paisagens naturais dos dois lugares e com as diferentes estações do ano em que foi rodado o filme, mas serve também para mostrar a contradição e a diferença do modo de vida entre uma cidade grande e um lugar pacato.

As cenas externas dos planos filmados na aldeia para onde a personagem Parvaty se mudou, são rodadas no ritmo de um tempo que flui sem pressa. As amigas Prabha e Anu ajudam Parvaty na sua mudança e se deixam impregnar pela atmosfera do interior, distanciando temporariamente dos seus problemas em Mumbai. 

Há uma cena belíssima em que Parvaty e Anu encontram pela casa uma garrafa velha com resto de alguma bebida alcoólica, elas tomam e começam a dançar festejando esta ínfima liberdade, o simples estar juntas, enquanto Prabha, em silêncio, as observa. Prabha carrega um vazio por causa de um marido desconectado da sua vida, ela se esforça para viver uma vida “normal”, mas pouco consegue. É no trabalho como enfermeira de um grande hospital que encontra uma linha de fuga para a opressão social e a sua solidão. 

A realizadora retrata as questões sociais da Índia com certa suavidade e expõe os obstáculos e desafios diários enfrentados pela classe social abordada no  filme.

Com a ficção ‘’Tudo o que imaginamos como luz”, a realizadora Payal Kapadia venceu o Grand Prix no Festival de Cinema de Cannes em 2024. O filme está em cartaz em várias cidades de Portugal. Mais do que RECOMENDO!

Em 2021, Kapadia recebeu o prémio Golden Eye de melhor documentário, por sua longa-metragem de estreia: “A Night of Knowing Nothing, na edição 74º do Festival de Cannes. E em 2017, a sua curta-metragemAfternoon Clouds“, foi o único filme indiano selecionado para o 70º Festival de Cannes. Ela faz um cinema independente, sobre temáticas sociais, financiado por fundos europeus, e relata que o cinema independente realizado com recursos da Índia quase não existe . 

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Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
Jorge Pereira
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