Payal Kapadia e a “luz” que ilumina o seu cinema

Erro: Não insinuem a Payal Kapadia que o seu mais recente filme, “All We Imagine as Light: Tudo o Que Imaginamos Como Luz”, é sobre sororidade ou de/e para mulheres, como inadvertidamente um repórter belga o fez no último Festival de Cannes, quando nos sentámos numa mesa do Palais des Festivals para falar com a jovem realizadora indiana. “Quando um filme tem muitas personagens masculinas, ninguém diz que é um filme sobre homens ou problemas masculinos”, disparou a cineasta num tom crítico, pedindo até desculpa pela forma como respondeu de forma vigorosa . “Se olharem para os filmes do Guy Ritchie, temos sempre só uma ou duas mulheres no elenco. Nunca ninguém diz que é um filme sobre homens ou problemas de homens”, explica, acrescentando que a sua ficção, que viaja entre Mumbai e Ratnagiri, é – acima de tudo – um filme sobre a sociedade e que, em vez de se usar a palavra sororidade, prefere o uso do termo “camaradagem”. “Os homens também têm problemas semelhantes. Apenas decidi seguir a perspetiva feminina da questão, mas não é um filme sobre mulheres ou problemas femininos”. 

Depois de dar nas vistas com “A Night of Knowing Nothing”, que fez as delícias da Quinzena de Cineastas em 2021, Payal Kapadia levou até Cannes “All We Imagine as Light: Tudo o Que Imaginamos Como Luz”, um dos melhores filmes de 2024, que finalmente vê a luz das nossas salas de cinema. Nele acompanhamos de perto Prabha (Kani Kusruti), uma enfermeira num grande hospital de Mumbai cuja vida é abalada quando recebe um presente do marido, que não vê há anos e está emigrado na Alemanha; e Anu (Divya Prabha), a sua colega de quarto que, ao ter como amante um muçulmano, desafia as convenções sociais e religiosas. Acompanhadas pela cozinheira do hospital Parvaty (Chhaya Kadam), que enfrenta a possibilidade de perder a casa onde vive, viajam para uma aldeia rural à beira-mar plantada na região de Ratnagiri, dando liberdade aos seus desejos e ambições. “Creio que o que fiz  foi abordar uma questão  política e social através de histórias muito pessoais”, explicou Kapadia, acrescentando que “a justaposição e o conflito que nasce disso mostra algo da sociedade em maior. E creio que o filme ultrapassa também as nossas fronteiras e a sua história torna-se universal , mesmo que a Índia seja um local extremamente específico em relação a certas questões, como religiosas”.

2 espaços, 2 momentos, 2 estações

Esquadrinhando o seu guião em 2 momentos, um em que as personagens tentam sobreviver às vicissitudes na vida na urbana Mumbai, mantendo ilusões; outro em que se “libertam” numa aldeia em Ratnagiri, Kapadia explica como no próprio processo de filmagem o guião foi se adaptando. “Filmei este projeto em duas partes. Quando acabei a primeira, editei um pouco, o que mudou o guião da segunda parte do filme. A verdade é que ao trabalhar com estas atrizes senti algo de tão brilhante, de fazerem faísca quando estavam juntas,  que na segunda parte acentuei o sentido de camaradagem”, explica a cineasta, avançando posteriormente para a explicação da escolha dos dois locais. “Mumbai é uma daquelas cidades para onde vão as pessoas que saem do interior rural. Mesmo que seja uma mudança dentro do país, vemos as coisas como um ato de emigração. (…) Tens de negociar a vida nestes locais, aprender uma nova língua. É doloroso. Esta foi uma das razões porque escolhi Mumbai como um dos espaços. E é um espaço que também conheço, vivi e cresci lá. Quis fazer um filme sobre um local onde é um pouco mais fácil as mulheres trabalharem e como negoceiam o espaço e a vida na cidade. Já o segundo local é mais a sul, no distrito de Ratnagiri,entre Goa e Mumbai, onde houve muita migração para trabalhar nas fábricas de algodão. Estes dois espaços estão para mim conectados devido a essa migração. Porém, ao longo dos anos, muitas dessas pessoas perderam o emprego nas fábricas, tendo as mulheres começado a trabalhar para compensar a perda de emprego dos maridos. As mulheres tornaram-se assim muito fortes e resilientes. Também me importava mostrar que as mulheres podem ser financeiramente independentes no meu país sem perder a ligação forte à família. Com isso têm acesso a outras decisões, como no amor. Estas contradições mexem comigo e queria falar delas”.

Quanto à decisão de contar a sua história através de duas estações do ano, Kapadia explica: “É como se tivéssemos só duas estações e, quando és de Mumbai e estás na época das monções, a luz da cidade é azulada. Por isso, essa luz acompanha-nos na primeira parte do filme. Na segunda parte, queria uma sensação pós-monção, de verão entre uma paisagem amarelada e vermelha. Todas as casas deste local são construídas com o vermelho tijolo. Esse vermelho e o amarelo seco, do pós monção, abraçam-se. Além disso, depois das monções, estes espaços rurais também não conseguem armazenar água e por isso é muito difícil fazer dinheiro com a terra. Queria mostrar a contradição dos dois espaços, com duas estações diferentes.”

Influências

Fã do cinema de Alice Rohrwacher, Apichatpong Weerasethakul e Miguel Gomes, Kapadia reconhece que na primeira parte do seu filme, em Mumbai, a forma como captura a cidade e a interação das suas personagens possa dever algo ao neorrealismo. Já quanto à “segunda metade”, a indiana diz que a sua liberdade levou-a a viajar ao místico e mágico. E embora afirme que as personagens que criou não são baseadas em ninguém em particular, ela afirma sem problemas que “a justaposição de coisas que retirou de amigos, personagens fictícias e até familiares” ajudou a compor o seu filme: ”A história das personagens é a história de Mumbai. É tudo sobre negociar o seu espaço na cidade e o que é a família e quem são os amigos. O que torna a tua família num espaço como este. Tenho muitos amigos que a certo ponto da vida vieram para Mumbai e tornaram-se muito próximos de mim. É o que eles tornaram que me interessava muito explorar”.

Ficção e documentário

Ficção ou documentário para mim é igual. Quero filmar. Apenas o processo é diferente. Para algo de não ficção, há menos dinheiro. Filmas um pouco, chegas a casa e montas. Em ficção existe demasiada gente a perguntar o que tens de fazer e tens de pensar num plano. São processos diferentes, mas tento sempre trazer um feeling de não ficção para a ficção. (…) Nos meus filmes anteriores, às vezes nem tinha câmara ou não a queria apontar para a cara das pessoas, então só gravava áudio com um pequeno gravador que transporto sempre comigo. Usando as vozes que recolhia comecei a fazer documentários. Transportei isso comigo até hoje, dando aquela sensação ao espectador de estar perante uma má gravação.” 

Política 

“Não sou anti-industrialização. A minha mensagem é mais anticapitalista. Em Mumbai, particularmente na área que filmei, existe um boom imobiliário. O mercado de flores que se vê no início do filme, nessa mesma área, passadas três horas, é na verdade uma área de negócios de multinacionais. Às 3 da manhã, o mercado das flores está lá, e quando sai vemos os edifícios todos de serviços e a profunda gentrificação da zona. São duas coisas diferentes que coexistem no mesmo dia. 

Supostamente, as cidades deveriam ser inclusivas, mas só se tiveres dinheiro é que consegues viver ou trabalhar nelas. Passamos de um sistema extremamente feudal para um capitalismo extremo. Houve um momento de socialismo na Índia que falhou completamente. A única coisa que restou foram as escolas públicas. E quando passas nesta área vês edifícios em que precisas de um QR Code especial para entrar, e elevadores diferentes para trabalhadores e gestores. No passado, essa área era frequentada por trabalhadores das fábricas de algodão. Para mim, isso é uma marca do capitalismo crónico que assolou o meu país. “

Filosofia de Vida

Sou uma pessoa que se sente feliz/encantada com as coisas. Temos tendência em ver a vida sempre de forma negativa, que a vida é terrível e só sofrimento. Mas não é só isso. Os prazeres humanos são importantes.” 

Cinema Indiano Independente

Creio que cada vez mais os cineastas indianos perceberam que precisam de financiamento exterior, particularmente em empresas europeias. Não existe financiamento na Índia para filmes independentes. Há certos estados que têm fundos destinados ao cinema, como Kerala. E nos anos 60 até existiu um fundo nacional. Mas agora a única hipótese é pedir apoio a empresas europeias e por isso há uma nova onda de filmes independentes. Além disso, ao longo dos últimos anos, tornou-se mais fácil obter equipamento capaz para a produção de um filme. As câmaras tornaram-se mais acessíveis, o que também ajudou.” 

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