Baseado em histórias reais de mulheres detidas no Irão, em particular da prémio Nobel Narges Mohammadi, condenada a 16 anos de prisão em Teerão, em 2016,  por estabelecer e dirigir “um movimento de direitos humanos que faz campanha pela abolição da pena de morte“, “Seven Days” imagina um cenário em que a sua protagonista, Maryam (Vishka Asayesh), é libertada, durante sete dias, para que possa consultar um médico e descansar, após sofrer um ataque cardíaco na prisão.

Nesses sete dias de liberdade “autorizada”, Maryam debate-se com o dilema (tcharan!) entre escapar do país com a ajuda de outros ativistas bem orquestrados; manter-se no país, ainda que detida, e continuar a luta contra o regime; e – mais importante, pelo desenvolvimento que a história leva – reencontrar os filhos, que não vê há seis anos. É um dilema respondido cedo, mas ainda periclante, tal qual a força cinemática que o realizador Ali Samadi Ahadi impele no seu filme.

Se primeiro o iraniano pede emprestado os códigos vulgarizados nos thrillers dos anos 70 para mostrar a rota de fuga da mulher, a rede de ativistas que a ajuda, e o sentimento de paranoia em seu torno, quando ela “muda de ideias”, e decide ir de encontro ao local onde estão os filhos, Ali Samadi Ahadi cai no mais puro melodramatismo do reencontro familiar, mudando a toada do filme e artificializando procedimentos, transformando tudo num imenso telefilme.

Irregular na sua abordagem ao guião, coescrito com Mohammad Rasoulof, Ali Samadi não peca apenas na construção da sua personagem central, uma mulher que ama a família, mas não aceita, como dado adquirido, que tenha que desistir da luta política por causa eles, como na atmosfera que impõem, que se sente sempre artificial, seja na vertente thriller (parece um filme de fuga à cortina de ferro, ou na linhagem “Bourne Identity” no escape), seja no melodrama, onde as interações familiares soam todas manipuladoras.

Quando isso se sente num filme que se baseia numa história real para existir, e mesmo que no coração estejam as bases de injustiça social num país que relega as mulheres para seres ao serviços dos homens, as coisas complicam-se, mesmo que o espectador tente mentalmente se afastar disso. Assim, deste “Seven Days” fica em nós a mensagem, pois de Cinema temos apenas procedimentos industrializados e algoritmicamente padronizados, que nem se importam se as imagens que criam são para o grande ou pequeno ecrã.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
seven-days-dissidencias-ao-servico-do-entretenimentoDeste “Seven Days” fica em nós a mensagem, pois de Cinema temos apenas procedimentos industrializados e algoritmicamente padronizados, que nem se importam se as imagens que criam são para o grande ou pequeno ecrã