Quando Christine recebe de herança a casa dos pais, ela e a família decidem mudar-se para lá. A sua filha de 9 anos, Lisa, conhece uma estranha e sinistra rapariga chamada Karen, que vive nos cantos mais escuros e remotos da velha casa. Será um fantasma ou uma amiga imaginária?
Realizado por Elbert Van Strien, o filme não esconde a sua identidade “asiática” e a inspiração que A Tale of Two Sisters forneceu. Mas esta obra está longe de ser uma cópia ou de ser um objeto plastificado do cinema europeu. Acima de tudo, a fita demonstra – tal como The Last Employee o fez – que existe muito potencial na Europa para desenvolver histórias de horror normalmente associadas a outras paragens.
Van Strien falou ao c7nema de Zwart Water (Two Eyes Staring), explicando-nos a sua génese, o remake que Charlize Theron prepara e quais os seus futuros projetos.
Passa no Fantasporto: Segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011, 17 horas, Grande Auditório.
Traz-nos hoje um thriller/filme de terror, com um tom clássico. Deveremos ter medo do que vamos ver hoje no Fantasporto?
Bem… em algumas partes do filme já vi pessoas a saltar da cadeira.
De onde surgiu a ideia para Zwart Water, e que inspirações tiveste para criar este trabalho?
A génese de Zwart Water é uma história engraçada. Há cerca de dez, doze anos, eu estava “preso” na minha vida, e houve alguém que me aconselhou a fazer uma terapia alternativa. E eu pensei: porque não… Mas durante a minha primeira sessão, o terapeuta disse-me que o meu irmão falecido estava comigo e que não se queria ir embora. Claro que depois disso nunca mais lá voltei, mas, quando estava a ir para casa, comecei a pensar que tinha uma grande ideia para começar uma nova história, e que um dia a iria transformar num filme.
Este tipo de cinema ou de género cinematográfico é algo que já me está no sangue. Estranhos casos psicológicos com um tom de thriller ou terror. Isso pode ver-se nas minhas curtas-metragens, como The Hidden Face e Still World. Há um DVD com três das minhas curtas que recomendo!
Durante a pré-produção, uma das inspirações veio de A Tale of Two Sisters (um dos premiados do Fantasporto). Uma boa combinação de poesia e terror, que era o que procurávamos.
Um filme de terror exige um ambiente próprio e uma localização especial para, só por si, perturbar o espectador. Como foi o processo para escolher os lugares e os atores para o filme?
Todo o meu trabalho até agora foi sempre muito atmosférico. E parece que sou bom nisso. Tivemos muita sorte em encontrar a casa. Tudo o que se vê no filme já lá estava. Ouvimos dizer que havia um sítio em Ghent, na Bélgica, onde havia este tipo de casas. O que fizemos primeiro foi comprar um mapa turístico para ver todos os castelos que havia e visitámos trinta num só dia. Esta foi a sexta casa que visitámos. Mas, quando a encontrámos, nunca poderíamos ter adivinhado que o seu interior já estava pronto para as filmagens.
Para além disso, estou habituado a trabalhar com crianças, mas também tive sorte em ter encontrado Isabelle (que faz o papel de Lisa), depois de ter feito 25 castings. Ela tem muito talento.
Estás contente com o resultado final do filme? E com a reação do público e dos críticos?
Uma vez que o filme é lançado, deixa de ser meu. Agora é com o mundo lá fora, por isso não comento essa parte.
Ouvi dizer que Charlize Theron comprou os direitos de adaptação para uma versão americana de Zwart Water. O que pensas disto? Gostarias de realizar a versão americana, como Haneke o fez em Funny Games?
É mesmo muito bom que a Charlize tenha comprado os direitos, são boas notícias para mim e para a Accento Films. Isso mostrou que os estúdios e os produtores de Hollywood estavam atentos ao meu trabalho e que as pessoas sabem que existo. Tenho agora um manager e um produtor americano com experiência, que pegaram no meu guião e que o vão realizar.
Quanto ao remake, nunca foi minha intenção realizá-lo. Gastei muito tempo da minha vida com Zwart Water e já tenho novas ideias em mente. Desejo toda a sorte à Charlize com este novo projeto.
Segundo o IMDb, o teu primeiro filme foi em 1993. À parte de algumas curtas e documentários, nunca realizaste nada para o grande ecrã até 2010. Houve alguma razão em especial?
Sim, foi uma luta para conseguir realizar o meu tipo de filmes. Este género cinematográfico não está na moda na Holanda. Assim, durante alguns anos, cada vez que me dirigia à televisão do Estado, diziam-me “não se encaixa na nossa política”, e a Dutch Film Fund necessitava de um acordo com a TV para me poderem dar o dinheiro para realizar.
Os produtores sempre me disseram para ter novas ideias para novos projetos, mas quando finalmente o consegui, eles disseram-me: “é um bom projeto mas não é possível financiá-lo aqui na Holanda”. Finalmente, decidi ser eu próprio produtor. E foi tudo porque o canal RTL decidiu intrometer-se no filme.
De qualquer forma, foi um período difícil na minha vida. Mas nunca desistiria do tipo de filmes que queria fazer e agora parece que valeu a pena.
De acordo com a Accento Films, estás a desenvolver três projetos: um thriller futurista (Out of Mind), um thriller noir (Black Isle) e Marionette, um remake de Marionett Enwereld (que tu realizaste). Podes falar-nos mais sobre estes projetos? Qual é o próximo?
Bem, acabo de ter luz verde para o meu próximo filme. É um thriller/comédia de humor negro chamado Uncle Henk. As filmagens vão começar já este verão.
Já temos financiamento para Out of Mind, que se passa durante dez anos no futuro, sobre um rapaz com amnésia que sente que os seus pais não são os seus verdadeiros pais, e Marionette, que é o tal escolhido por um produtor americano.
Onde é que te vês daqui a dez anos?
Espero já ter feito esses filmes anunciados em cima. Seria absolutamente fantástico! Mas nunca se sabe, a vida é cheia de surpresas.

