Voltando a requisitar a “anarquia gentil” — expressão sua em Locarno — que caracterizava a sua curta de 2008, Ah, Liberty!, onde também tínhamos um grupo de crianças e a ausência de adultos, além de uma sensação de liberdade misturada com ameaça, Ben Rivers trouxe ao Festival de Locarno, na competição pelo Leopardo de Ouro, Mare’s Next, uma nova incursão ficcional — de cinema cifrado — que nunca abdica dos traços seus experimentais.
Inspirado na peça The Word for Snow, de Don DeLillo, o realizador britânico aborda a liberdade das crianças para imaginar e criar um novo modelo de vida após uma tragédia que as deixou sós no mundo, construindo uma aventura que se quer poética, mas que muitas vezes adormece o espectador — não de tédio puro, convenha-se, pois a estranheza e a capacidade do cineasta para brincar com os códigos do cinema mantêm-nos despertos, mas sobretudo devido a uma forma artística que beira a alienação irremediável, e, nesse sentido, o retrato de um cineasta que percorre terreno já desbravado por si mesmo.
Daí resultar, com frequência, na observação dos filmes de Rivers, uma sensação evidente de falso risco, onde, na realidade, impera o conforto. O realizador normalizou o experimentalismo do seu cinema e criou — na prática — uma zona segura, mantendo-se firmemente na linhagem daqueles que abordam causas (sociais, ecológicas, políticas, humanas) e que visitam frequentemente segmentos ocupados por (auto)marginalizados — como nos seus documentários sobre Jake Williams: This Is My Land (2006), Two Years at Sea (2011) e Bogancloch (2024) —, mas com uma linguagem artística que permanece hermética, confinada a circuitos especializados e fechados.
Apontar o dedo exclusivamente a Rivers seria perder de vista o quadro maior: o de um sistema que distingue o discurso aparentemente transgressivo (e porque não revolucionário) enquanto confina a sua forma a uma elite que o consome como consciência tranquila, produzindo mais alienação que qualquer outra coisa.
Voltando a Mare’s Next, ainda que esta crítica mereça, também ela, ser fragmentada, dispersa, ambígua e velada, Rivers apoiou-se na experiência da pandemia — com crianças confinadas em casa, forçadas ao isolamento por dias a fio, sem liberdade. Isso serviu de impulso para escrever uma história em que acontece exatamente o oposto: criou um mundo onde as crianças são completamente livres, sem supervisão adulta. Livres para imaginar. Livres para criar um novo mundo. Livres para viver nele sem competição. Fundindo géneros e dando poder à palavra — sobretudo à da criança e à da personagem que ela encarna —, enquanto apresenta um mundo em ruínas, em reorganização ritualista e relacional, Ben Rivers constrói cada episódio como um fragmento performático solto, unido por separadores descritivos, costurando o que o tempo e uma narrativa — que habita a zona da dúvida — desfizeram.
Num segmento final, adultos surgem entre a figura fantasmagórica de um museu ou caverna do passado, tentando atar de alguma forma o ambiente pós apocalíptico com o passado. Mas nem isso dá ao espectador a sensação de partida ou chegada — apenas de interrupção, de ruptura.
E no que resta, percebemos: este não é um filme sobre a liberdade das crianças. É uma janela para aqueles que as olham de fora, com inveja, à distância, e com a certeza de já não pertencerem a um mundo verdadeiramente vivo.



















