«Two Years at Sea»: até podia ser um filme pós-apocalíptico

(Fotos: Divulgação)

Em 2006, Ben Rivers filmou «This is My Land», uma curta-metragem que nos apresentava Jake Williams, um solitário homem que vive num habitat invulgar. Anos depois, e sentindo que ainda não tinha encerrado aquela personagem, Rivers regressou ao «local do crime» e decidiu – agora numa longa-metragem, a sua primeira – reconstituir com Williams situações reais da sua vida. Nascia «Two Years at Sea», uma obra que apresenta como assinatura pessoal do artista um preto e branco prateado e granulado filmado a 16mm definitivamente hipnótico que por vezes nos dá uma sensação de mobilidade onde não existe. 
 
O que se segue é um estudo intemporal meditativo e contemplativo de uma personagem que parece viver a utopia que o próprio Rivers fala na sua curta-metragem «Slow Action». Jake já teve uma vida diferente (as fotografias assim o indicam), mas agora não fala com ninguém e apenas interage com o que está a sua volta, sejam elementos naturais ou artificiais – como os bidons com que cria uma balsa onde permanece, connosco, alguns minutos imóbil.
 
Jake Williams
 
 
 
Numa entrevista ao White Review, Rivers afirma que inicialmente apenas procurava alguém numa cabana num bosque, especialmente porque na época estava a ler «Pan», um trabalho de Knut Hamsun que segue um homem que vive numa cabana com o seu cão Aesop. Esta personagem tem uma clara inaptidão social e foi esse o catalisador para o projeto. Porém, nenhuma pessoa que encontrou se assemelhava a essa personagem, até que pediu ajuda a amigos e um deles lhe falou de Jake, que viria a colaborar com ele na curta «This is My Land?». Nasceu uma amizade. «Ele deixou-me entrar no seu mundo, deixou-me andar pelo seu território por quanto tempo eu quisesse. Comecei a filmar coisas, por isso o primeiro filme era muito fragmentado e baseado no que via. Não pedi ao Jake para fazer o que quer que fosse, apenas andava na sua zona e filmava o que pensava que valia a pena. Quando consegui algum dinheiro da Film London pensei em trabalhar com outra pessoa, mas durante o processo decidi regressar aoJake. Nós mantivemos contato todo esse tempo, tornamo-nos amigos e senti que havia mais para fazer no seu mundo. Ainda não tinha acabado de tratar dele. (…) Queria trabalhar com alguém que eu conhecia e tivesse capacidade de dirigir. Chegámos a ter ideias conjuntas. Se fosse alguém novo, provavelmente teria sido mais difícil ter este tipo de relação. Havia muita facilidade em lidar com o Jake, por isso foi muito fácil falar com ele sobre repetir ações, construir cenas, fazer coisas que normalmente não faríamos e que seriam impossíveis de realizar se eu não estivesse com ele.»

A observação deu lugar à construção
 
Jake Williams e Ben Rivers 
 
Se «This is My Land» assumia-se uma realização frontalmente observadora, em «Two Years at Sea» Ben Rivers queria construir mais, aproximar-se do cinema e «fugir da ideia do documentário filmado em cinemascope sem diálogos». Numa outra entrevista, o cineasta acha que a definição de documentário é enganadora em relação a este projeto. «Isto não é um retrato verdadeiro de uma pessoa (…) mas uma visão particular do seu mundo (…) Há uma pessoa neste filme muito parecida ao Jake Williams real, mas este não é o Jake Williams (…) Ele é uma personagem num filme, que é uma construção. Muitas coisas da sua vida ficaram de fora: o verdadeiro Mr. Williams, um antigo marinheiro mercante que aprecia ocasionalmente companhia e que trabalha como jardineiro e professor substituto».

A ficção científica como influência
 
Como influencias, Rivers admite ter pensado em «Los Muertos» de Lisandro Alonso e de ser fascinado por Pier Paolo Pasolini, mas quando se conhece e vê tanta coisa, é difícil definir as influências. «É algo acumulativo», acrescenta, dando a entender uma paixão pela ficção científica e filmes e livros «sobre o último homem na terra»
 
Se pensarmos bem, «este até podia ser um filme pós-apocalíptico», conclui.
 
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