Assente em três curtas metragens nacionais que se centram em personagens femininas, “Que mulheres serão estas?”, nas suas dificuldades quotidianas de afirmação e dependências, traça um pequeno panorama da contemporaneidade e da condição do ser mulher, saltando da capital (Um Caroço de Abacate) para uma aldeia na região de Pampilhosa da Serra (As Sacrificadas), mas terminando em Torres Novas (By Flavio).

Gaya Medeiros e Ivo Canelas em “Um Caroço de Abacate”
É em Lisboa que começa a aventura de “Um Caroço de Abacate”, filme que coloca Larissa, uma mulher trans, e Cláudio, um homem cis, numa jornada de descoberta e “conversas com tesão”. Essa jornada inicia-se com Larissa a invadir o carro de Cláudio, que numa zona de prostituição observa, mas não interage com as mulheres a “fazerem pela vida”. Apesar de Cláudio pedir a Larissa para sair do carro (o “não” é tratado como um “nim”), ela permanece e convence-o a dar-lhe boleia até um pouco mais à frente da rua. Dessa boleia nasce o ato de irem comer algo, conversar durante bastante tempo e até visitar uma festa dos amigos de Larissa. Pouco a pouco, a dupla vai criando um elo que nunca se materializa carnalmente, funcionando mais num jogo platónico castrado por imposições externas que condicionam as decisões de Cláudio. Ainda assim, o espectador fica com a clara sensação que as portas entretanto encerradas estão agora entreabertas.

E se as portas se abrem, ainda que timidamente, em “Um Caroço de Abacate”, elas vão-se fechando, apressadamente, para Otília, a personagem principal da curta “As Sacrificadas”, de Aurélie Oliveira Pernet. Empregada de limpeza na piscina municipal de uma vila do interior, esta mulher vê, a cada dia que passa, uma maior necessidade de cuidar da mãe, a qual começa a apresentar sinais de demência. Com os incêndios florestais como pano de fundo assustador, o que desperta nela uma sensação cada vez maior de claustrofobia e isolamento, Otília vê no escapar, nem que seja para apenas refletir, uma barreira intransponível dada a dependência que a mãe revela ter (ainda que o negue). Como uma âncora, ela sente-se presa a um espaço e a uma forma de vida, e com muito poucas alternativas.
Dependência também é a chave de “By Flávio”, filme de Pedro Cabeleira, coescrito com a atriz protagonista, Ana Vilaça. Explorando a questão de o que fazer com as ambições e desejos pessoais quando se assume o papel de mãe, o filme desenrola-se na zona do Médio Tejo. “By Flávio” segue Márcia, uma mulher com um filho que sonha em ser protagonista nas redes sociais e que combina, numa noite, um encontro com um rapper. Quando ela não consegue encontrar ninguém que possa tomar conta do seu filho, ela acaba por o levar ao “date”, que ocorre num shopping.

Esteticamente, “By Flávio” é o mais arrojado dos três trabalhos, não apenas do ponto de vista da câmara, dos seus movimentos e planos, mas igualmente na forma como incorpora o mundo digital no mundo físico, como duas realidades que ocorrem em paralelo, tal como as camadas que em Márcia tem em si, não se reduzindo à posição de mãe.
Qualquer um dos três filmes, ao contrário do título que assume este “pack” de três curtas, não responde diretamente à questão lançada (deixa essa tarefa para nós), mas abre espaço para o diálogo e reflexão aprofundada sobre as complexidades de um conjunto de vidas marcadas pelas fosso entre expetativas e realidades, desejos e expetativas que lhes impõem.
Por estas razões, “Que mulheres serão estas?” merece uma visita ao cinema e não se resume à figura de panfleto ou encomenda para qualquer agenda. Há bom cinema por aqui, daquele que se arrasta e emaranha nas conversas bem depois da sessão terminar.




















