Contemplando o facto do seu nome genérico o ter perseguido a vida toda, pois afinal das contas, só na zona de Londres existem uns 30 mil John Smith, o realizador homónimo, que começou a dar nas vistas na década de 1970 com “The Girl Chewing Gum” (1976), faz uma curiosa viagem pela a vida, carreira e mortalidade, falando com tanta veemência de autoralidade na arte como de factos íntimos que moldaram a sua história e trajeto.

Começando de forma bastante banal, apresentando fotos suas a que a voz se sobrepõe com episódios da infância e juventude, rapidamente John Smith abana o que define como banalidade ao colocar mensagens em texto (espécie de legendas em dissonância com o que é dito) que questionam a forma do seu documentário, brincando com as farpas habituais aos autores de que as suas melhores obras são sempre as do início, e não as de agora, particularmente depois do hiato de três anos em que teve de lidar com tratamentos oncológicos. Não há também muita esperança quanto ao futuro, diríamos, pelo que lemos nessas mensagens, como aquela em que diz que como pode um autor pensar em fazer arte quando se aproxima a hora da extinção da vida humana, isto enquanto os resultados de uma ressonância magnética ao cérebro povoam a tela. 

Falando de tudo e não se fixando em nada, como que partindo de um ensaio biográfico com o tema base das dores que sentiu na vida pela forma genérica do seu nome, John Smith acaba por fazer também um ensaio ao seu estilo e obra, onde sincronias e assincronias são apresentadas com um humor que esconde, de alguma forma, uma decepção por o seu reconhecimento e até fama (é falado de um encontro bizarro e potencialmente ficcional com Paul McCartney ou da amizade que tem com o vocalista dos Pulp, Jarvis Cocker) chocarem com o seu nome comum, que quando pesquisa na internet vai dar sempre a outras pessoas, como o famoso explorador que travou conhecimento com Pocahontas, ou um líder do Partido Trabalhista dos anos 80.

E até o final, onde coloca um grupo de pessoas a cantarem e a dançarem o hit dos Pulp “Common People” é desconstruído e parodiado pelo realizador, que não deixa de mandar farpas a si mesmo por acabar um filme com o seu quê de testamento repleto de aplausos.

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Jorge Pereira
being-john-smith-filme-testamento-de-um-cineasta-com-o-nome-britanico-mais-comumPartindo de um ensaio biográfico com o tema base das dores que sentiu na vida pela forma genérica do seu nome, John Smith acaba por fazer também um ensaio ao seu estilo e obra, onde sincronias e assincronias são apresentadas com um humor que esconde, de alguma forma, uma decepção.