Enquanto a dupla Caroline Poggi e Jonathan Vinel já explora – no seu estilo “enfant terrible” – a intersecção entre o cinema e os videojogos em projetos como “Eat The Night”, e Harmony Korine jura a pés juntos que “o futuro do entretenimento reside nos filmes que podem ser experienciados como videojogos”, o coletivo pseudomarxista de artistas, investigadores e cineastas Total Refusal (atualmente composto por Susanna Flock, Adrian Jonas Haim, Jona Kleinlein) continua a sua “guerra mediática” de forte crítica política, social e filosófica, através da reciclagem de recursos de videojogos tradicionais.

Assim, e depois de “Hardly Working” (2022), que se afirmava como uma exploração etnográfica do trabalho e da vida quotidiana de personagens não jogáveis, os figurantes digitais dos videojogos, analisando ciclos de trabalho, padrões de atividade, bem como bugs e avarias, que criam uma analogia vívida para o trabalho no capitalismo, o trio apresentou agora “World of Stake”, exibido (e premiado) no Curtas Vila do Conde. 

Com foco na passividade coletiva perante a soberania individual, ou seja, dando a entender que vivemos nós mesmos num jogo em que somos meros agentes passivos perante a impotência política, na linha do sentimo-nos soberanos, mas estamos verdadeiramente domesticados, os Total Refusal manipulam imagens de videojogos como o FIFA 23, PGA Tour 2k21 e DiRT Rally 2.0 para inverter os princípios da vitória e da derrota. E mesmo que a catástrofe seja anunciada, a alienação é geral, sobressaindo um triunfo da ilusão liberal. Na verdade, esta alienação e ilusão leva-nos mais uma vez a uma das cenas de The Matrix, quando a personagem de Cypher diz: “Eu sei que este bife não existe. Sei que, quando o ponho na boca, a Matrix diz ao meu cérebro que ele é suculento e delicioso. Ao fim de nove anos, sabem o que percebi? A ignorância é uma bênção.”

Mas, como o nome do coletivo indica, “Total Refusal” (Recusa Total), eles estão longe de se render e continuam uma jornada de alerta, ainda que saibam que dificilmente mudarão qualquer coisa perante a passividade geral. Mas como Nadav Lapid nos disse em entrevista, numa menção a Israel que bem podia ser universal:“ Sinto que criaram uma bolha e que já é impossível abaná-los ou acordá-los. Tento isso nos meus filmes, abanar a sociedade, mas sei que não vai funcionar. Consigo com algumas pessoas, mas com a sociedade, no seu todo, não. Parece que o cérebro deles foi desligado e precisamos de 10 mil filmes como este para os despertar”.  Que venham mais 9998 projetos dos Total Refusal.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
world-of-stake-a-alienacao-como-resposta-a-catastrofeCom foco na passividade coletiva perante a soberania individual, ou seja, dando a entender que vivemos nós mesmos num jogo em que somos meros agentes passivos perante a impotência política, os Total Refusal manipulam imagens de videojogos como o FIFA 23, PGA Tour 2k21 e DiRT Rally 2.0 para inverter os princípios da vitória e da derrota