Quebrar o tabu do franquismo: uma conversa com Karra Elejalde

(Fotos: Divulgação)

Famoso pelo seu papel em Namoro à Espanhola (Ocho Apellidos Vascos) e a sua sequela, Karra Elejalde veio a Portugal durante a Cinefiesta para falar de Enquanto a Guerra Durar, o novo filme de Alejandro Amenábar

É uma das maiores estrelas do cinema espanhol atual, mas confessa que “sempre quis ser mais prestigiado que famoso“, que não gosta muito de tirar selfies e que esta coisa das entrevistas e da promoção aos filmes não fazem o seu género. “Sou ator, gosto de atuar“, diz-nos, acrescentando que tudo o que vem a seguir, que muitas vezes inclui a necessidade de falar com mil jornalistas à procura de informação exclusiva, o aborrece: “Fazemos as conferências de imprensa para isso mesmo, mas depois temos de responder às mesmas questões individualmente“.

Curiosamente, para alguém que não gostar de dar muitas entrevistas, a nossa conversa programada para os 15-20 minutos estendeu-se até aos 45′. Um Gin tónico e um par de cigarros ajudaram numa conversa que abrangeu a sua carreira, destacando o seu papel em Enquanto a Guerra Durar, onde é Miguel de Unamuno, ensaísta, romancista, dramaturgo, poeta e filósofo espanhol que inicialmente apoiou o General Franco, mas mais tarde viria a reposicionar-se politicamente.

Antes deste papel, ou daquele que lhe deu grande fama (Namoro à Espanhola) – e pelo qual “espera não ficar conhecido” – Karra participou em dezenas e dezenas de produções, trabalhando com cineastas como Julio Medem, Pedro Almodóvar, Nacho Vigalondo, Iciar Bollain e até com os portugueses Joaquim Leitão e Leonel Vieira.


Namoro à Espanhola

Depois de Namoro à Espanhola, que “lhe deu uma tremenda noção de êxito“, o basco já fez sete filmes, mas muitos apenas o reconhecem pela comédia sensação de 2014. Pior, segundo Karra, entrar num restaurante ou noutro espaço público tornou-se um problema, pois todos querem tirar uma foto com o Koldo, o pai da rapariga basca por quem o andaluz Dani Rovira se apaixona. “Já não vou para esplanadas e num restaurante coloco-me de costas para a porta e num sítio escondido“, diz, sublinhando que não se importava nada de ser menos conhecido, mas manter o prestígio: “Não concordo que prestígio e popularidade andem de mão dada. Nem acho que essa popularidade e prestígio obriguem a que paguemos uma espécie de quota, que essas selfies sejam o preço a pagar pela fama (…) Picasso e Dali sempre tiveram prestígio e nunca tiveram de tirar uma selfie para isso.


Karra Elejalde como Miguel de Unamuno em Enquanto a Guerra Durar

No novo filme de Alejandro Amenábar, Karra Elejalde assume o papel de Miguel de Unamuno, ensaísta, romancista, dramaturgo, poeta e filósofo espanhol. Unamuno inicialmente apoiou o General Franco, mas mais tarde viria a reposicionar-se politicamente, ficando bastante conhecido por um célebre discurso e discussão com o General Millán Astray na Universidade de Salamanca, incidente que lhe valeu o despedimento. Unamuno passaria os seus últimos dias de vida em prisão domiciliar, na cidade de Salamanca.

Para o basco, o papel era um desafio e não existe uma fórmula comum para entrar em qualquer personagem: “Um ator às vezes tem de atuar em modo drama, outras vezes de comédia. E dentro da comédia tens mil formas, como a expressionista, vaudeville, farsa latina, naturalista, e muitas mais. Não existe uma fórmula para fazer isso tudo, cada vez que trabalhas estás perante um espécime novo. É muito difícil o nosso trabalho, pois não existe uma fórmula.

Curiosamente, e apesar da fama e do prestígio (que Karra possui), ele não era de todo o ator que Amenábar pensava para o papel principal e o ator explicou-nos que foi preciso entrar no papel para convencer o cineasta. Nesse processo, Karra atribui 50% de mérito a Nacho Diaz, “que fez um trabalho de maquilhagem maravilhoso“, que o obrigou diariamente a 4 horas e meia extra de preparação.

O guarda-roupa executado por Sonia Grande é também mencionado pelo ator, na sua preparação, que naturalmente envolveu uma grande pesquisa histórica sobre Unamuno: “interessou-me muito o que diziam os seus contemporâneos sobre ele“. Identificando-se muito com a personagem que interpreta e definindo-o como extremamente “coerente” e “particular“, Karra falou-nos da doença degenerativa que afetava toda a família de Unamuno, adiantando que este nunca escrevia à máquina, mas apenas à mão, consequência de uma artrose de natureza degenerativa. Para ele, “estas pequenas coisas” representaram um trabalho extra, que ele tentou mimicar, aprendendo consequentemente mais e mais sobre o objeto que retrata. E, claro está, que não se pode esquecer a ajuda do realizador neste processo

Trabalhar com Alejandro Amenábar

Sei o que vais pensar, pois é o meu último filme e estou a promovê-lo (…) O realizador com quem melhor me entendi foi com Alejandro Amenábar“, diz-nos Karra Elejalde, explicando seguidamente as suas razões: “Foi uma surpresa enorme. A imagem que ele transmite é a de alguém muito formal, um daqueles cinéfilos que desde miúdo vê filmes, um tipo aborrecido, insosso, com muito pouco sentido de humor. Mas nas filmagens encontrei uma pessoa [completamente diferente] muito inteligente, muito carinhosa (…) Simpatizei e criei uma empatia com quase todos os realizadores com quem trabalhei, mas quem me maravilhou, o mais completo, foi Amenábar (…) e não posso esquecer o Fernando Sánchez-Izquierdo, assistente de realização, com quem já tinha trabalhado no 100 metros (…) Amenábar foi o cineasta que mais puxou por mim.

O tabu do franquismo

Apesar de na literatura o tabu do Franquismo ter começado a ser quebrado há largos anos, no cinema a tendência é mais recente, com vários filmes, como este e La Trinchera Infinita, a tocarem em feridas ainda por sarar em terras de “nuestros hermanos”: “O que se passa é que até agora só contaram a história dos vencedores. Não nos contaram a verdade da guerra civil, da mesma maneira que não nos contaram a verdade da história da descoberta da América. Nem se devia dizer “descobrir”, mas antes “conquistar”. (…) Se vais conquistar ‘Margaritas’, ouro, o que seja, vais com leviandade e premeditação. Se usas “descobrir” isso não existe. Não se deve dizer “descobrir”. Assim vês o quão mal te contaram a história. Existe uma necessidade de colocar os pontos nos i na História de uma vez por todas. Mas também não sei se foi coincidência ou casual estrearem 4 filmes do tema de uma vez. Sou um determinista e por isso digo que o que tem que ser, será. Desconhecemos muitas coisas e os românticos de tempos pretéritos não podem enganar os nossos filhos. Que eles [os miúdos] vejam este filme na escola. Que entendam as coisas como aconteceram. (…) o que é bonito no filme do Alejandro é que não é um legado de rancor. Não é um panfleto comunista. Não é a história dos perdedores. Veja-se o caso de Espanha, em que qualquer pessoa que use a bandeira é acusada de fascista. Porquê esta ferida? A ideia do realizador com este filme não é colocar ácido na ferida, mas sim cauteriza-la.

O aumento dos extremismos

Para Karra, é preocupante o crescendo da extrema direita no globo, especialmente no leste e norte da europa, mas também em Itália. O Brasil também é mencionado, não fugindo ao tema do aumento de popularidade do Vox em Espanha: “Sim, e o Vox vai ainda ganhar mais votos com o que se passa na Catalunha. É incrível o que se está a passar (…) Não é normal que em 83 anos nada tenha mudado no debate sobre o País Basco, a Catalunha e Espanha. Em termos de fronteiras, autonomias, nada mudou no discurso. Claro que temos de tocar neste tema [franquismo], explicar aos mais jovens como foram as coisas, antes que os neonazis os cativem.

Uma forma de combater isso pode ser através do cinema, que Karra considera ser um grande embaixador cultural, social e ideológico. “Isto não é Ken Loach“, frisa o basco, acrescentando que Amenábar não é “um homem de cinema político” e que nos bastidores da construção de Enquanto a Guerra Durar participaram um historiador muito progressista e um militar muito conservador. “Amenábar fez uma película, não vou dizer cauterizadora, nem que ele manteve uma total equidistância. (…) Ele quis ter a piedade que os vencedores não tiveram com os vencidos”.

Streaming e Cinema

Espanha é um dos países mundiais com maior investimento por parte das plataformas de streaming. Recentemente, Karra Elejalde participou num pequeno filme que foi adquirido pela Netflix, A Pequena Suíça, um projeto que lhe demorou dois dias a filmar: “não tinha tempo para mais“, confessa. E se para ele, que conta com mais de cem produções no currículo, a chegada das plataformas não teve grande impacto, para os seus colegas as coisas estão definitivamente melhores: “Hoje em dia, se és produtor e não tens o apoio de uma das plataformas (Neflix, Moviestar, HBO, Atresmedia ou Mediaset), o projeto não arranca. A Netflix aproveitou a vantagem e está a ganhar às outras plataformas porque apostou em projetos que os outros rejeitaram. As séries dão muito trabalho (…) cinco ou seis meses (…) e como a produção delas está num verdadeiro pico, o que acontece? Há seis anos não existiam estas plataformas e tinhas 350 mil atores que andavam pelos bares a beber Gin Tonic, agora – com o surgimento delas – só tens 250 mil, 100 mil estão a trabalhar. Para um produtor que tem acesso a estas plataformas, o mundo está aberto. Para o que não têm acesso a elas, o mundo está fechado”.

O Teatro não chega…

Para além de uma carreira no cinema e na TV, Karra Elejalde construiu um currículo fortíssimo no Teatro, “uma arte que ajuda a ser um ator mais completo“, mas que para ele “não chega, nem limpa as teias de aranha” do desejo de trabalhar. A sua última peça foi em 2016, numa adaptação de O Nome da Rosa.

O futuro

Admitindo que tem vários projetos em marcha, Karra explica que, devido ao facto de Espanha ter estado alguns meses com um governo interino, que levaram ao adiamento do financiamento de várias obras, todas as produções que tinha agendadas para o final deste ano passaram para o início do próximo ano.

Sem divulgar o nome dos cineastas envolvidos, o ator admite que vai trabalhar num filme em torno de Ignacio Ellacuría, um jesuíta que foi assassinado em 1989 – juntamente com mais cinco colegas – por um pelotão do Batalhão Atlacatl das Forças Armadas de El Salvador, na residência da Universidade UCA.

Karra tem também em mãos um outro guião, desta vezes sobre Pedro Arrupe, “um homem maravilhoso que vivia a escassos 7 km de Hiroxima, onde cairia a bomba atómica”. Arrupe e a pequena comunidade de jesuítas sobreviveram à onda do choque, sem se contaminarem, e como tinha conhecimentos de medicina ajudou os feridos. Duas séries para a Movistar e um filme argentino estão também na sua agenda.

Quanto a cineastas com quem gostaria de voltar a trabalhar, Karra menciona com encanto uma história com Manuel Gutiérrez Aragón, com o qual trabalhou, nunca se sentido “dirigido” por ele. No final das filmagens, o realizador explicou-lhe que ele não necessitava de direção. Por tal, o ator basco não fala em desejo de ser “dirigido” por este ou aquele realizador, mas lança novamente o nome de Amenábar como alguém com quem quer colaborar novamente. Outros nomes mencionados, foram Agustí Villaronga, Cesc Gay e Rodrigo Sorogoyen, embora acrescente que não gosta de lançar assim nomes par o ar pois dá a sensação que está a pedir para trabalhar com eles.

Voltar a trabalhar com Joaquim Leitão e Leonel Vieira?

Claro que sim” é a resposta de Karra à questão de voltar a trabalhar com os cineastas lusitanos com quem colaborou em Adão e Eva e A Selva. Sobre o primeiro, menciona as suas capacidades de contorcionismo na arte de cruzar as pernas, e relembra que na época das filmagens, Leitão era conhecido em Espanha como “o Julio Medem português“. Sobre Leonel Vieira, Karra diz que foi “uma experiência maravilhosa“, lembrando-se dos locais onde rodaram o filme, como em Manaus, no Brasil.

Autocensura nos novos tempos

O poder nefasto das redes sociais já trouxe alguns dissabores a Karra Elejalde, especialmente depois de uma entrevista em que o confesso adepto da Real Sociedad e Alavés afirmou que o Athletic não tinha só bascos no plantel, mas sim jogadores nacionais (há atletas nascidos em Navarra, etc). O uso do termo “nacional” caiu mal nos adeptos do Athletic, que invadiram as redes sociais com as frases cruéis. “Chegaram a desejar que eu morresse de cancro. Se é assim com uma discussão de futebol, imagina com uma de política“, disse, adicionando que “está muito na moda na redes sociais” as afirmações pessoais serem usadas pelas massas para boicotar os filmes: “Aquilo que digo, usem-no contra mim, não contra um filme ou contra outros“.

Admitindo assim uma autocensura permanente nestes novos tempos, Karra diz que o objetivo foi conseguido pelos censores: “Já não têm de nos censurar, nós fazemos isso por eles (…) a internet criou uma espécie de ‘vírus’ que nos faz ser menos felizes“.

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