Há histórias no cinema que nos arrebatam e transportam para o interior de culturas e questões sociais prementes.
“Banel e Adama” (2023), a primeira longa-metragem escrita e realizada pela jovem franco-senegalesa Ramata-Toulaye Sy (1986-), é um exemplo. 

Durante 1h30min somos convidados – convocados a vivenciar o que sente na pele os protagonistas: ela, Banel (interpretada de forma extraordinária por Khady Mane, estreante no cinema);  ele, Adama (Mamadou Diallo, já havia atuado em outros filmes). Um jovem casal que enfrenta a desaprovação da família e de toda a aldeia, situada numa área rural senegalesa do norte, cheia de tradições e superstições arraigadas em gerações de pessoas muçulmanas, daquelas que cegamente creem que tudo é obra do Deus Alá, e que o poder masculino sobrepõe àquele das mulheres.

Adama é um homem trabalhador, discreto e dócil, que deseja romper com a tradição local dos homens que se tornam Chefes da Aldeia. Era a sua vez de assumir tal poder e ele refuta veementemente, estimulado pela sua amada Banel. Banel é uma mulher forte, trabalhadora, dedicada, apaixonada, quase mítica, determinada, e ousa transtornar o seu destino e desconstruir os papéis femininos na sociedade, principalmente naquela área rural. Ela é considerada subversiva diante dos olhos da comunidade, não se veste como as mulheres da aldeia (que são muçulmanas conservadoras), não quer ter filhos, numa cultura onde pôr um filho no mundo é o dever das mulheres, como lhe disse a sua sogra e mãe. Tem cabelos curtos como os do marido, contesta os fortes costumes locais e os papéis de género. A jovem Banel não usa os lenços tradicionais que carregam no cabelo as mulheres muçulmanas, prefere o trabalho masculino de pastorear o gado (ao lado do marido Adama) do que o trabalho doméstico das mulheres e na lavoura. Ela quer ir embora daquele lugar que a oprime e não a permite ser quem ela é, e fará de tudo para conseguir. Facto é que Banel, pagando um preço alto, rompe o papel das mulheres na comunidade e na vida como um todo. Enquanto isso, as mulheres da aldeia estão sob o jugo dos seus maridos, aram a terra sob o permanente sol escaldante, para plantar alimentos que não vingam. 

A vida no campo não tem glamour, em geral é pacata e áspera. Na referida aldeia, a luta pela sobrevivência urge, existe escassez de comida, a terra cada vez mais árida e infértil, o calor exaustivo e uma seca devastadora degradam a terra e a vida daquela comunidade. O gado começa a morrer, a chuva, que há tempos não cai, acaba por obrigar alguns homens da aldeia a partir temporariamente. Os que ficam, mesmo desesperados, resignam-se ao poder de Alá. 

Banel reage e vai à caça de algo para se alimentar. Ela é destemida, e igualmente seca e resistente como a terra, o solo daquele lugar africano que abriga o seu corpo feminino. Adama é mais ponderado e menos enfurecido com a sua realidade, contudo é também destemido. Os dois amantes cuidam-se mutuamente. Entretanto, o amor imponderável dos dois entra em colisão com a cultura da comunidade, onde não há lugar para este romance quase mágico, trágico e indomável.

O facto dos dois tentarem romper com uma tradição ancestral dos chefes da aldeia parece que faz cair uma maldição sobre Banel e Adama, e também sobre toda a comunidade. Aliás, destaco uma cena arrebatadora (dentre muitas do filme),  aquela do voo de milhões de pássaros, uma revoada descomunal que ao partir rumo a migração (devido a falta de água e alimento), passa por cima da cabeça de Adama, tendo este de se atirar ao solo para não ser dilacerado; uma cena que anuncia uma tragédia inevitável.

A história de Banel e Adama remete à mítica tragédia Shakespeariana, ao amor de Romeu e Julieta. As personagens de Ramata-Toulaye Sy lutam para estarem juntos contra tudo o que os impede de serem felizes, mas vão ter que se sucumbir ao poder e aos valores conservadores de uma comunidade religiosa do interior da África, ao fardo de uma natureza estéril e de um lugar pesado demais para uma mulher audaciosa como Banel, para o seu modo irreverente de viver e estar no mundo. Na estreia do filme em Cannes 2023, a realizadora ressalta que, para criar a personagem de Banel, inspirou-se em três mulheres da mitologia grega: Medeia (que sofreu a traição do marido Jasão e utilizou os seus poderes mágicos para vinga-lo); Fedra (que se apaixonou pelo enteado, filho do seu marido Teseu, o que lhe trouxe consequências); e Antígona (filha do casamento incestuoso de Édipo e Jocasta, que casou-se com Hemon, filho de Creonte, aquele que condenou Antígona a ser sepultada viva). Todas estas mulheres, assim como Banel, tiveram uma vida trágica, muito em decorrência de relações amorosas.

Numa entrevista ao C7NEMA, a realizadora Ramata-Toulaye Sy declara: “Não quero me limitar a um cartão postal do Senegal, mas, sim, a buscar imagens não saturadas, apoiadas em referências de Van Gogh e Munch”;  tais referências estão claramente  visíveis na composição dos planos e enquadramentos criativos, no rigor da iluminação e nas imagens pictóricas de “Banel e Adama”, rodado em Fouta, norte do Senegal e falado na língua local. O som ambiente, principalmente, na cena final, é mesmo arrebatador. Os tons da fotografia do filme vão alterando conforme o estado de espírito de Banel, a paixão avassaladora, a intempestividade ou a secura interior desta personagem parecem estar conectadas com a paisagem, o esplendor da luz, a aridez e cor da terra desta região africana. A maioria dos atores não são profissionais e o destaque mais uma vez vai para Khady Mane que interpretou Banel de forma cativante, intensa e admirável.

Em especial, a força da protagonista Banel, uma jovem MULHER NEGRA que faz de tudo para chegar onde deseja, é algo relevante na narrativa ficcional construída por Ramata-Toulaye Sy, até porque em aldeias da África, e não só, o lugar das Mulheres é quase sempre limitado ao poder e a opressão que os homens exercem sobre elas. As tais hierarquias de genéro nunca beneficiaram as Mulheres, é uma questão social que precisa ser revista. O lugar da Mulher é onde ela o desejar, não cabe aos seres masculinos as decisões femininas sobre elas mesmas. Este filme lembrou-me das mulheres empoderadas do cinema da também senegalesa Safi Faye (1943-2023). Faye foi a primeira mulher da África Subsaariana a realizar uma longa-metragem distribuída comercialmente, “Kaddu Beykat“, 1975. Ela realizou vários documentários e filmes de ficção com foco na  vida rural do seu país, destacando o papel das mulheres.  Vibro por mais filmes como os de Faye e Sy!

A argumentista e realizadora francesa de origem senegalesa Ramata-Toulaye Sy estudou cinema em França, onde nasceu e reside. “Banel e Adama” estreou na competição do Festival de Cinema de Cannes 2023, é um filme espetacular, a não perder!

Tive acesso à obra no Cinema Ideal em Lisboa, neste mês de agosto de 2024, distribuída em Portugal pela Alambique Filmes, sendo/a ser distribuído pela Pathé África em 18 países deste continente. Espero que “Banel e Adama” possa ser visto por um número maior de pessoas de todo o mundo, deve ir para a Plataforma FILMIN em breve, e quem sabe para outras plataformas de streaming, já que infelizmente os filmes independentes não resistem muito tempo nas salas de cinema e as pessoas estão cada vez menos a ir ao cinema. Uma pena!

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Pontuação Geral
Lídia ARS Mello
Jorge Pereira
banel-e-adama-um-amor-imponderavel-2024A história de Banel e Adama remete à mítica tragédia Shakespeariana, ao amor de Romeu e Julieta. As personagens de Ramata-Toulaye Sy lutam para estarem juntos contra tudo o que os impede de serem felizes, mas vão ter que se sucumbir ao poder e aos valores conservadores de uma comunidade religiosa do interior da África, ao fardo de uma natureza estéril e de um lugar pesado demais para uma mulher audaciosa como Banel