Um ano depois de nos oferecer o documentário “A Morte de Uma Cidade”, onde explora a sua relação com uma Lisboa em transformação (e turistificação), particularmente depois da crise de 2008, João Rosas regressa à personagem de Nicolau (Francisco Melo), a qual foi crescendo ao longo de um trio de curtas-metragens assinadas por si: “Entrecampos” (“2013”), “Maria do Mar”(2015) e “Catavento” (2020).

Agora encontramos Nicolau no dia do seu vigésimo quarto aniversário, deprimido, não apenas porque a namorada, Inês, a quem ainda chama de “amor” nas sucessivas mensagens que troca, deixou-o há um ano, mas porque não sabe muito bem o que fazer da vida num local que lhe oferece sonhos e discursos liberais a metro, mas apenas trabalhos precários. A sua banda Jazz, que ensaia há anos, teima em não lançar um álbum, e os concertos são também uma miragem. A relação com os pais já viu melhores dias e, enquanto caminha por rotas incertas de biscate em biscate, onde até se inclui contar o número de bicicletas que passam à sua frente, a sua progressão emocional revela-se tão precária como a laboral, agarrando-se o jovem melancolicamente a uma relação antiga de forma ilusória, tal como acredita que ainda poderá voltar a pedalar na sua antiga e já moribunda “bicla”.

Rosas sempre demonstrou carinho pelas suas personagens e em “A Vida Luminosa” não é exceção, contando sempre com um Francisco Melo no tom e ritmo correto de um jovem adulto onde predominam frustrações e indecisões, enquanto do outro lado, a sociedade, a família, os amigos, exigem dele uma tomada de decisões e um avanço em sempre. Vagueando por uma geografia de Lisboa que se afasta do cartão postal, Rosas leva-nos com Nicolau pelas estradas da sua vida que, embora bem enraizadas na nossa realidade, têm tudo de universal, não apenas no que concerne à geografia global (é em Lisboa  mas podia ser outra metrópole), mas principalmente por os dilemas que a personagem atravessa, no amor, no trabalho, naquilo que se quer fazer e ser, serem comuns a qualquer uma das gerações (X, Millennials, Z) no seu tempo de (in)decisões. Sofrendo silenciosamente, ele vai sempre rodeado de personagens femininas que abrem portas ao diálogo e à maturidade, palmilhando assim novos passeios para atravessar do desejo, particularmente quando uma francesa (Cécile Matignon) que conheceu no seu dia de anos volta a cruzar-se no seu caminho e desperta em si uma sede de ações e resoluções. 

Curiosamente, apesar da ternura por Nicolau, Rosas não cai na condescendência ou paternalismo no seu retrato, colocando frequentemente figuras em cena como Mariana (Francisca Alarcão) e um trio de “poetas vadios” que mexem com a sua existência através de intrépidas, mas certeiras, tiradas de ironia.

Com fartas doses de cinefilia polvilhadas um pouco por todo o lado, não fosse o filme passar pela Cinemateca, conectar pedaços de clássicos (de Erich von Stroheim, por exemplo) à vida à deriva que Nicolau leva, e ter na sua atmosfera um ambiente romantizado à la Rohmer, João Rosas assina, acima de tudo, um filme honesto, onde a fina de camada de nostalgia nunca se confunde com pretensiosismo.

Tal como “A Morte de Uma Cidade”, num registo documental, demonstrou,  “A Vida Luminosa” augura um rico futuro para João Rosas, com ou sem Lisboa e Nicolau no seu caminho.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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