Breaking the Ice: Inventário do isolamento

(Fotos: Divulgação)

Estreado na 21.ª edição do Festival de Tribeca, um dos filmes que mais despertou o olhar da crítica norte-americana é Breaking the Ice, de Clara Stern. Uma descoberta do cinema austríaco, conduzida por uma realizadora estreante em longas-metragens, mas já com uma sólida carreira nas curtas. O filme é um tratado sobre as lutas das mulheres contra o sexismo das tradições familiares.

Agora em exibição na 3.ª edição do MyMetaStories, Breaking the Ice acompanha o percurso de uma jogadora de hóquei, Mira (Alina Schaller), na tentativa de se libertar dos laços familiares e de se desligar da propriedade vinícola herdada dos antepassados, para se dedicar plenamente ao desporto — e a uma paixão.

Numa pequena conversa com Clara Stern, descobrimos um pouco mais deste drama:

Um dos aspetos mais tocantes de Breaking the Ice é a forma como retrata as estratégias de negociação de uma família disfuncional, entre partidas e ruturas morais. Que família é essa?

Tentei esboçar um filme sobre o isolamento. A minha protagonista pratica um desporto coletivo, mas acredita ser capaz de resolver tudo sozinha, sem trabalho de equipa. Isola-se, por medo e pela perceção de que o mundo à sua volta está a mudar. E essa mudança começa precisamente dentro da sua família. São três gerações dependentes a viver sob o mesmo teto, marcadas pelo luto.

De que forma Breaking the Ice dialoga com a representação tradicional da Áustria no cinema?

Cresci no centro de Viena, uma cidade lindíssima, mas que parece desenhada para turistas, com uma arquitetura de postal ilustrado. O filme que fiz afasta-se disso, ao escolher uma região montanhosa de onde o meu pai é originário e ao retratá-la sem o “cliché austríaco” habitual — o enquadramento de lagos e montes sob uma perspetiva de beleza aparente. Procurei também mostrar diferentes tradições e afastar-me do peso do jugo cristão-católico.

E como é que essa fuga aos clichés se manifesta nas filmagens das partidas de hóquei?

Recorri aos clássicos americanos e canadianos sobre hóquei — há muitos filmes sobre esse desporto —, mas a centelha principal da sua representação na minha dramaturgia foi escrever o argumento com uma mentalidade exterior à prática do jogo. Parte do elenco até conhecia algumas regras, mas escrevi sem me preocupar com os códigos mais específicos, para que o filme fosse mais universal.

O que mais me interessava era um código visual: a armadura das jogadoras. Essa armadura servia, em cena, como metáfora para as barreiras que Mira cria nas relações com os outros. Os filmes dos Estados Unidos e do Canadá sobre hóquei tinham orçamentos muito superiores aos nossos e usaram câmaras mais leves nas filmagens. Eu segui um caminho diferente, mais intimista.

Que caminho foi esse?

O da quietude — deixar a câmara ser espectadora e valorizar os momentos em que as palavras se tornam supérfluas. Já no argumento indicava certos diálogos apenas como sinal de uma transformação emocional.

*Artigo publicado originalmente em junho de 2022

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