Foi um livro do século XIX, Germinal (1885), de Émile Zola (1840-1905), que abriu a torneira dramatúrgica do “heroísmo do rendimento”, uma linhagem sociológica de narrativas em que a jornada dos protagonistas se constrói a partir de estratégias de sobrevivência económica. Cabem aí Chaplin e Rocky Balboa, com amplo espaço para as personagens de Ken Loach e Costa-Gavras. Não é rara a associação deste procedimento temático às cartilhas marxistas de luta de classes e aos engenhos teóricos funcionalistas, nos quais a sociedade é vista em analogia com organismos biológicos.

Nessa toada, há lugar também para os aportes do naturalismo — uma corrente anfíbia entre a arte e as ciências sociais — que representa territórios como se fossem as entranhas dos corpos, com as suas escatologias e dinâmicas de excreção. É nesse naturalismo que uma parte nobre do cinema sul-coreano se instalou desde os anos 2000, a começar por Park Chan-wook. A prova está na comédia No Other Choice (Eojjeolsuga Eobsda), um filme que enerva, mas é irresistivelmente hilariante.

Apelidado de “o Parasita dos anos 2020” na sua passagem pelo Festival de Veneza, No Other Choice foi escolhido pela Coreia do Sul como candidato oficial ao Óscar de Melhor Filme Internacional. A seleção reforça o estatuto de Park Chan-wook no panteão dos cineastas autorais da atualidade. A 19 de outubro, o Festival de Sitges, em Espanha — considerado um paraíso para o suspense e o fantástico — galardoou a produção, orçada em 12,2 milhões de dólares, com o prémio de Melhor Realização.

Responsável por redesenhar o peso internacional do cinema sul-coreano, impulsionado pelo sucesso de Oldboy (culto de 2004, atualmente disponível na Filmin.pt e na MUBI Brasil), Chan-wook regressa ao ecrã três anos depois de Decisão de Partir, que lhe valeu o prémio de Melhor Realização em Cannes, e um ano após o trabalho conjunto com o realizador paulista Fernando Meirelles na minissérie O Simpatizante, disponível na MAX.

A trama do seu novo projeto — um desempregado que decide eliminar os rivais na disputa por uma vaga de emprego — é adaptada do romance The Ax (1997), de Donald Edwin Westlake (1922-2008), anteriormente filmado por Costa-Gavras em 2005 com o título O Corte.

O protagonista de No Other Choice, Man-su (Lee Byung-hun, num registo que evoca Buster Keaton), é um especialista em fabrico de papel com 25 anos de experiência. Vive uma vida tranquila ao lado da esposa, Miri, dos dois filhos e dos cães, até ser abruptamente despedido. O choque é devastador, mas Man-su promete encontrar um novo emprego em três meses — pelo bem da família. A realidade, porém, revela-se impiedosa. Depois de um ano a saltar de entrevista em entrevista, corre o risco de perder a casa e é forçado a deixar os animais noutra residência, por não conseguir alimentá-los. No desespero, aparece na empresa Moon Paper para entregar o currículo, mas acaba humilhado pelo gerente, Sun-chul.

Convencido de que é mais qualificado do que qualquer candidato, Man-su toma uma decisão drástica: “Se não existe uma vaga para mim, vou ter de criá-la.” Munido de uma arma — e de outros objetos improváveis, como um vaso de planta —, embarca numa espiral de violência.

Chan-wook, nascido em 23 de agosto de 1963, cresceu numa Coreia ainda marcada pelos fantasmas da dominação japonesa, que chegou a proibir o uso do idioma nativo. Essa vivência de reconstrução identitária é visível no calvário de Man-su, no seu apego às raízes e ao orgulho nacional. A frase “Não tenho outra escolha” (que dá título ao filme) repete-se como um mantra para justificar o instinto de sobrevivência — e mascarar a sua falha trágica maior: o individualismo. A mulher e os filhos são, no fundo, desculpas para os crimes. Man-su mata para não perder os luxos do passado e para não cair da pirâmide social.

Essa perspetiva distancia-o da empatia presente na versão mais paternalista de Costa-Gavras. Em Chan-wook, crime é crime — e o sangue corre. Não há espaço para o perdão, apenas para o espanto diante de um mundo que conduz os homens à loucura e não os prepara para resistir.

A fotografia de Kim Woo-hyung cria planos que distorcem a aparência de harmonia do real, mergulhando o espectador numa vertigem visual. Algumas imagens sobrepõem-se à narrativa e reforçam uma sensação típica da obra de Chan-wook: a de que cada cena ambiciona ser antológica, mesmo à custa da coerência do guião. Ainda assim, há momentos que hipnotizam — um enredo que faz da violência uma alegoria da desmesura contemporânea.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/z5b0
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
no-other-choice-a-violenta-desmesura-do-individualismoEm Chan-wook, crime é crime — e o sangue corre. Não há espaço para o perdão, apenas para o espanto diante de um mundo que conduz os homens à loucura e não os prepara para resistir.