Luc Besson fez um Drácula. É um Drácula deslumbrante… com ação… com espanto… com lirismo. Lembra a incursão poética que John Badham fez sobre esse monstro de espírito ferido com Frank Langella, em 1979. Sempre há alguém disposto a regressar a ele. Tal como o rei Édipo de Tebas e o príncipe Hamlet dos dinamarqueses, dois sinais de feridas narcisistas ancestrais, o conde Vlad Tepes Draculea (1431-1476), da Valáquia, nunca sai do radar da arte. Há um regresso recorrente a ele — na literatura, nas BDs, no teatro e no cinema — devido ao simbolismo do vazio existencial, à beira da melancolia, que a sua figura sedenta evoca. A sede de que aqui se trata não é a de sangue, mas sim a da paixão perdida. É ela que garante a sua universalidade e permanência. Enquanto houver dor de luto, haverá Drácula.
Ele encaixa-se na etiqueta criada pelo escritor Mark Rein Hagen, autor do RPG (role-playing game ou jogo de personificação) Vampiro: A Máscara: cainita. O termo refere-se à sua génese bíblica, Caim, o primeiro ser na Terra a derramar sangue alheio por cobiça, não por autodefesa. Os cainitas, em geral, são metáforas da vileza, da corrupção. Caim matou Abel por inveja… ponto final. Mas o furor vampírico de Tepes, na interpretação ultrarromântica de Bram Stoker (1847-1912) no romance Drácula, de 1897, não é corrupto… é passional. Amar sem encontrar a amada perdida leva-o a matar.
É nesse território do afeto, já arranhado nos anos 90 por Francis Ford Coppola com o seu Grand Guignol Bram Stoker’s Dracula (1992), protagonizado por Gary Oldman, que a nova versão do mito de dentes afiados, estruturada por Besson, se instala, mas com traços épicos. Um épico à maneira “de antigamente”, como Hollywood já raramente faz, daqueles com figurinos suntuosos e direção de arte em modo ostentação. A cobertura é pomposa, mas o bolo por baixo tem consistência precisa, com um recheio doce de autoria. É a EuropaCorp (o estúdio fundado pelo realizador francês em 1992) a afirmar-se, a cumprir a sua vocação de criar espetáculos notáveis pelo elevado faturamento e pela urdidura estética cuidada.
Filmado na Finlândia, com um custo estimado em 45 milhões de euros, «Drácula: Uma História de Amor» caminha no rasto melodramático sem nunca perder a bússola da “epicização” da História do Velho Mundo que recria. Ao contrário do (também) estonteante Nosferatu, de Robert Eggers, cujo objetivo é homenagear o clássico homónimo de 1922 e buscar uma perspectiva “feral” do personagem central (a besta que reside no Homem), o filme de Besson relativiza, minuto a minuto, a maldade provisória de Vlad. Dialoga com Stoker pelas margens da sua escrita, com o intuito de investir na sua vida como paladino entre os cruzados contra os otomanos, apresentando factos que desconhecemos. Encontra um jovem ator com apetite pelo risco — Caleb Landry Jones, premiado em Cannes em 2021 por Nitram — para dar alma e vida ao aristocrata que se perdeu quando o seu amado morreu. A sua atuação é firme. O seu brilho nos olhos grita verdades. O seu silêncio reflexivo dói.
A disponibilidade de Caleb para se pôr à prova facilita a expansão da personagem Drácula, para além do arquétipo mefistofélico construído por Bela Lugosi (1882-1956) nos anos 30, na Universal. O modelo mais sombrio dos filmes da Hammer, com Christopher Lee (1922-2015), é ignorado num dispositivo narrativo loquaz, de muita fala, bem ao estilo francês, adotado no guião de Besson, onde o Conde fala dos seus anos perdidos. Vemos o seu desempenho como cavaleiro cruzado antes da morte da companheira, Elisabeta (Zoë Bleu, exata em cena), e, a seguir, a sua errância, por todo o planeta, em busca de saberes que lhe permitam reencontrar a esposa numa futura reencarnação.
Nesta reinterpretação, elementos historicamente tratados com um viés místico e fantástico ganham realismo, com justificação científica. É o caso de um perfume usado pelo vampiro para mesmerizar as suas vítimas. Já as gárgulas que o servem relativizam a natureza feudal, de senhorio, da sua imagem histórica.

A abordagem antropomórfica, segundo a qual Drácula se transformava em morcego ou rato, é excluída da película da EuropaCorp. Temos apenas um corpo envelhecido, com poderes de taumaturgia (extração de sangue à distância) e telecinese (movimentação de objetos com a mente), que lhe são concedidos no momento da sua renúncia a Deus. É difícil olhar para o personagem interpretado por Caleb e não pensar no assassino vivido por Jean Reno em Léon: O Profissional (1994), obra-prima de Besson. Léon mata por necessidade, mas refreia o seu instinto ao vislumbrar um refúgio afetivo. Com Vlad acontece o mesmo. Esta revisão humanizada estende-se também ao seu algoz, o cientista e antropólogo conhecido como Van Helsing, reformulado no filme de Besson como um religioso chamado O Padre. Christoph Waltz é o seu intérprete e traz consigo todo o peso dramático que sustenta o seu trabalho desde que ganhou destaque com Inglourious Basterds, em 2009. O Padre não quer destruir Drácula. Quer que ele se arrependa e abrace o Senhor. É pelo Perdão que a maldade pode desaparecer deste plano de realidade, na sua ótica de fé.
Neste ano em que Radu Jude se apropria de Vlad Tepes (um romeno como ele) numa reinterpretação política da lenda, incluída na competição pelo Leopardo de Ouro de 2025 no 78.º Festival de Locarno, Drácula: Uma História de Amor encanta o olhar com os enquadramentos de luz dionisíaca de Colin Wandersman (parceiro de Besson e de Caleb em DogMan) e excita os tímpanos com a banda sonora de Danny Elfman. Aliás… um Elfman inspirado. Ele ajuda o realizador de Nikita (1990) a dar um acabamento luxuoso a uma fita de veia clássica, com um nível de grandiosidade — plástica e também dramática — que Besson não demonstrava desde a ficção científica O Quinto Elemento, que abriu Cannes em 1997.
Este ano, ele apostou num pequeno experimento de risco, June and John, um romance com um olhar encantado (e encantador) sobre as paisagens de uma Los Angeles esvaziada, que retira grande parte da sua força da cinematografia (em estado de graça) de Tobias Deml. Essa mesma força espetacular está presente em Drácula: Uma História de Amor, prova de que Besson, após muitos erros, continua grande.
Ex-estrela do mundo da publicidade, ele filmou a sua primeira longa-metragem (O Último Combate) em 1983 e conquistou as salas há 40 anos com Subway, com o qual lançou uma espécie de movimento chamado Cinéma du Look. Jean-Jacques Beineix (de Betty Blue) e Leos Carax (com Mauvais Sang) foram associados a esta onda, onde o estilo (com requinte plástico extremo) parecia sobrepor-se aos debates teóricos, típicos de uma pátria conhecida por filmes cheios de palavras. Os trabalhos seguintes de Besson seguiram veios narrativos com maior densidade verbal e maior refinamento na construção dramatúrgica das personagens. O seu Drácula honra — e bem — a tradição oitentista do Cinéma du Look, mas revisita as suas regras com maior maturidade.

















