Qualquer genealogia de um cinema musical que tenha almejado transcender a influência da Broadway tem de passar por “Les Parapluies de Cherbourg” (Palma de Ouro de 1964) e cruzar com “One From The Heart” (1981), que faliu Francis Ford Coppola, mas emplacou um hinário romântico nas vozes de Tom Waits e Crystal Gayle. Essa linha evolutiva poderia ter encontrado um eixo de renovação em “The End”, uma produção dinamarquesa concebida e realizada pelo documentarista texano Joshua Oppenheimer, mas não encontrou. Esbarrou numa muralha de absoluta falta de simbiose entre as tramas cantadas (e dançadas) e a ficção científica. Piora o quadro a complexidade (sem qualquer lirismo) de letras confiadas à garganta de Tilda Swinton e Michael Shannon. Apesar de uma sumptuosa direção de arte, coerente com o refinamento do audiovisual escandinavo no design de produção, a distopia gelada do realizador de títulos de não ficção aclamados como “The Act of Killing” (2012) e “The Look of Silence” (2014) desgasta os códigos das narrativas canoras, sem nada para lhes acrescentar.

Na corrida à Concha de Ouro de San Sebastián, “The End” começa catastrofista, mas caminha pelas veredas da filosofia “integrada”, ou seja, aquele que acredita na prosperidade da ciência. Oppenheimer leva-nos a um futuro apocalíptico, onde ninguém mais pode ver (e sentir) a luz do Sol. Quem sobrou vive num bunker, o que já convida a uma forma de narrar claustrofóbica. Essa vertente é fácil para o cineasta americano, a julgar pela opção dos seus documentários em concentrar os relatos em ambientes fechados, opressores. Até aí, a premissa teria tudo para descolar, sobretudo com um elenco de respeito, com Tilda, Shannon, Moses Ingram e George MacKay (impecável em cena). O deslize é que o ensejo de unir a ficção científica à cartilha musical nunca faz match, ou seja, não cria mescla. A sensação que se tem é que a cantoria é mero penduricalho, um assessório a um enredo de medula sociológica, criando caricaturas.    

O que se passa ao longo de cansativos 148 minutos é uma ciranda de lamentações, com ensaios de redenção afetiva, empreendida pelos moradores de uma fortaleza de luxo, situada no meio de uma imensidão vazia. Os lamentos acontecem quando a paz da mãe (Tilda), do pai (Shannon, totalmente deslocado) e do filho (MacKay) é abalada pela chegada de uma jovem (Moses). Ela traz um sopro de romantismo para a cena, ensaiando um idílio comao personagem de MacKay, mas a secura da banda sonora impede qualquer chance de lirismo.

Oppenheimer tenta estabelecer um debate sobre as reinvenções sentimentais num cenário de desolação onde a incomunicabilidade é o pior saldo do apocalipse. Plasticamente, o filme é elegante, mas carece de unidade e do calor lúdico que tanto se esforça para retratar.  

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Rodrigo Fonesa
the-end-um-musical-rouco-que-ecoa-o-vazioO que se passa ao longo de cansativos 148 minutos é uma ciranda de lamentações, com ensaios de redenção afetiva, empreendida pelos moradores de uma fortaleza de luxo, situada no meio de uma imensidão vazia.