O monstro que nasceu do trauma nuclear japonês em 1954 — criado por Ishirō Honda e produzido pela Toho — voltou a ocupar o centro das atenções e os fãs fizeram filas para se fotografarem ao lado de uma imponente réplica do rei dos monstros. Enquanto isso, a plateia participava num painel especial, com presença de Shinji Higuchi, correalizador de Shin Godzilla (2016), um dos reboots mais aclamados da saga, programado para regressar às salas em 4K. O evento faz parte de um calendário global de celebrações organizado pela Toho, que tem como data simbólica o 3 de novembro de 1954, data de lançamento do primeiro filme.
Alegoria do medo nuclear, esta criatura pré-histórica despertada e mutada por explosões atómicas no Pacífico, emerge do oceano para devastar o Japão — não como um vilão, mas como uma força da natureza, um espelho do horror vivido pelas cidades de Hiroshima e Nagasaki. Honda, um veterano da Segunda Guerra, concebeu o filme como um grito contra a guerra, um alerta sobre o poder destrutivo das armas nucleares.
Ao longo de sete décadas, Godzilla transformou-se: foi destruidor, protetor, anti-herói, ícone kitsch. A franquia já soma quase 40 filmes, além de séries de televisão, animações, bandas desenhadas e uma infinidade de produtos. Mas, como notou Steve Ryfle, coautor do livro Godzilla: The First 70 Years — esgotado na Comic-Con —, o segredo da sua longevidade está na sua capacidade de se adaptar sem trair as suas raízes.”É a franquia cinematográfica mais longa centrada numa única personagem — mais do que James Bond“, disse Ryfle à AFP. “Godzilla foi assustador, heroico, engraçado, sério. Mas sempre esteve enraizado numa realidade: o trauma do Japão no pós-guerra. É isso que o mantém vivo.“

