Na genealogia de Nó – primeira das cinco longas-metragens de ficção em concurso pelo troféu Kikito de 2025 – encontram-se duas produções anglo-portuguesas premiadas: Listen, de Ana Rocha, e On Falling, de Laura Carreira – ambas sintonizadas com a temática da opressão das mulheres no ambiente laboral. O filme brasileiro partilha com essas obras europeias o mesmo equilíbrio entre delicadeza e contundência. Tal como elas, percorre as perdas potenciais que as imposições do sistema capitalista de trabalho impõem a quem anseia por um mínimo de dignidade. O elemento da crença em tradições religiosas de matriz africana, abordado pontualmente no argumento, aterra a trama realizada por Laís Melo a um contingente social em que a fé não é invasiva nem dirigente. É, sim, companheira – como um farol afetivo, como um abrigo para Glória, mãe, amiga, operária, alvo de asperezas.
Saravy, coautora do guião com Laís, interpreta Glória numa atuação destemida, que faz ferver as angústias sentimentais (e financeiras) dessa personagem numa temperatura crescente. São poucas as vezes em que ela menciona uma cigana, entidade mística que, por vezes, “baixa” no seu caminho. Falar pouco não significa crer pouco, nem impõe ao filme a obrigação de se manter fixo nessa trilha de religiosidade. Esse fio é um elemento importante, mas é, acima de tudo, mais um entre outros num desenho dramatúrgico plural, que se esboça nos minutos iniciais e se estratifica sequência após sequência como um estudo de personagem. Nó é tridimensional na sua investigação sobre Glória.
A montagem de Dan Oliveira e Tomás Osten é crucial para que este princípio narrativo não se perca: Nó é uma cartografia de Glória, nas suas geografias interna e externa… no seu mundo físico e na sua cabeça cansada de tanta exigência. Nas suas planícies dramáticas, há sequências que se candidatam à posteridade do imaginário cinéfilo gramadense, como a belíssima tomada da corrida dela e das filhas para apanhar um autocarro. Glória cuida de três meninas, que servem de cais ao seu sentimento, mas não resume a sua vida a elas. Tem amigas, gosta de samba, adora cantar, tem aspirações.
A direção de fotografia dionisíaca de Renata Corrêa faz closes em Saravy quando necessário, mas observa o universo em que Glória se move sem fazer reverência a detalhes específicos do plano, pois não há nada nele que produza viragens bruscas. O rigor da cinematografia faz-se notar na opção firme por um plano de trabalhadores que escutam, bovinamente, as determinações da sua chefia. Ali, há uma promessa de ruína para a vida de todas e todos, disfarçada numa proposta de aumento salarial.
Esta é uma das duas viragens que assombram Glória. A primeira é o processo judicial que enfrenta, na luta contra o ex-marido, que pretende tirar-lhe a guarda das filhas. A segunda possível viragem reside, em crisálida, no processo de seleção na sua empresa, que pode garantir-lhe uma promoção. Nesse contexto, as ligações estreitas com colegas de quem tanto gosta podem ser ameaçadas, sob a ameaça fantasma da mais-valia. Estes conflitos abalam a crónica de uma vida em vertigem, que protege a sua prole e as suas parcerias como um tesouro que não se avalia em papel moeda.
Na realização, Laís, conhecida pelo curta-metragem Tentei (2017), aprofunda a sua radiografia da classe trabalhadora, mergulhando na reverberação dos modos violentos de organização do mundo e nas estratégias de construção de respiros que aliviem a batalha do dia a dia. A conceção sonora de Tulio Borges é um dos maiores trunfos do filme na forma como retrata uma realidade de brutalidades disfarçadas de regras de conduta e imposições legais.



















