Na história de Karlovy Vary, Non c’è pace tra gli ulivi (Não Há Paz Entre as Oliveiraspt; Páscoa de Sanguebr), de Giuseppe De Santis, entra como um verdadeiro episódio de diplomacia cultural, luta ideológica e disputa da imagem de Itália no exterior. Distinguido com uma Menção Honrosa Especial na sua 6.ª edição, a fita chegava depois de dois anos antes, Ladrões de Bicicletas, de Vittorio De Sica, ser anunciado na programação, mas de ver interdita a sua exibição pelo governo italiano.
A verdade é que a Itália democrata-cristã não queria ver a circular, num festival do bloco socialista, uma imagem de país pobre e em conflito. Essa distinção a Non c’è pace tra gli ulivi em KV foi lida pela imprensa de esquerda italiana como uma revanche contra o obscurantismo político e cultural de Roma.
Embora o filme anterior do cineasta, Riso amaro, tenha deixado a sua marca nas salas de cinema italianas, ele foi criticado por filmar o povo com demasiada sedução. O universo das mondine (trabalhadoras dos arrozais), que retratava, era socialmente forte, mas o melodrama, o crime, a música popular e a sensualização exagerada de Silvana Mangano desviavam a luta laboral para o espetáculo, e levavam o neorrealismo para um campo mais comum em paragens ocidentais.

Por isso mesmo, De Santis chegou a Non c’è pace tra gli ulivi, o terceiro filme do que se chamaria a trilogia da terra, com elementos contraditórios e em choque. Lido como uma tentativa de correção por parte do cineasta, com o conflito de classes a surgir frontalmente, na batalha de uma comunidade contra o opressor, e a sedução a ser reduzida, o filme passa-se na Ciociaria, uma região presa ainda aos costumes patriarcais e relações feudais que produzem desigualdades violentas. É aí que Francesco, um jovem pastor regressado da guerra, descobre que foi roubado pelo poderoso Bonfiglio, mas à sua volta só encontra o medo e o silêncio, sublinhando a submissão generalizada do povo. É daí que nasce uma luta individual que se transforma numa parábola coletiva de pastores pobres contra um novo-rico predador.
Numa época onde o neorrealismo já se encontrava a definhar, a crítica recebeu o filme com frieza, pois embora reconhecesse uma primeira parte forte na descrição do território, encontrava graves defeitos na estrutura e múltiplos excessos melodramáticos. Acusado de ser demasiado barroco, De Santis sempre afirmou que os seus filmes partilhavam a mesma moralidade dos westerns americanos, mostrando o desejo de ir para lá do naturalismo, apostando assim numa forma mais composta e estilizada.
Recuperado e inserido na retrospetiva Out of the Past – KVIFF 60/80, Não Há Paz Entre as Oliveiras marcou o seu tempo, a carreira de De Santis e a história do certame checo.

