Vem aí Honestino, que é exibido em Portugal no próximo FestIn, em outubro, mas que, antes, estreia no Brasil, o país de origem, a 13 de agosto. Fusão de raro equilíbrio entre documentário e ficção, a longa-metragem do realizador brasileiro Aurélio Michiles, centrada na luta do líder estudantil Honestino Guimarães — sequestrado em 1973, aos 26 anos —, incendiou o Festival do Rio de 2025 com debates políticos de alta temperatura. Saiu do Cine Odeon com o Troféu Redentor de Melhor Montagem. Numa toada de taquicardia, a montagem de André Finotti, que assina o argumento com Michiles, funde uma série de arquivos com dezenas de depoimentos de familiares, amigos e militantes num mosaico que se abre à encenação, com o ator Bruno Gagliasso, numa interpretação inflamável, no papel-título.

Antes de chegar às salas, Honestino teve uma sessão especial fora de competição no Bonito CineSur, em Mato Grosso do Sul, no último sábado, 25 de julho, com lotação esgotada. Após a projeção, mediada pelo produtor Nilson Rodrigues, Michiles e Gagliasso conversaram com o C7nema sobre o processo de criação de um filme que procura devolver dimensão humana a um dos nomes mais emblemáticos da resistência estudantil à ditadura militar brasileira.
Para Gagliasso, a interpretação nasceu menos da reconstrução histórica do que de um mergulho afetivo no homem por detrás do símbolo político. O ator conta que foi a sensibilidade de Aurélio Michiles que o conduziu à personagem. “O Aurélio tem um olhar e uma sensibilidade que tiram da gente o melhor. Ele enxergou em algum lugar que eu precisava falar sobre isso. Eu fiz isso em Marighella (realizado por Wagner Moura e lançado em 2019, na Berlinale), só que estava do lado da escória. Agora pude fazer isso através do lado certo da História.”
O encontro entre os dois, aliás, aconteceu quase por acaso. Segundo Gagliasso, o cineasta Sérgio Machado promoveu um jantar para os apresentar. Na ocasião, o ator estava fisicamente irreconhecível, mais magro, com a cabeça e as sobrancelhas rapadas, em consequência de outro trabalho. Michiles, porém, viu ali o Honestino que procurava. Mais do que estudar uma personagem histórica, Gagliasso afirma ter descoberto uma pessoa de carne e osso. “Eu não estava a fazer um filme sobre a História. Estava a fazer um filme sobre um homem, um garoto, que tinha mãe, amigos, que amava, escrevia poesia, se emocionava. Todas essas pessoas que lutaram contra a ditadura eram humanas. Eram tão humanas que lutavam por nós. Foi isso que o Aurélio despertou em mim”, disse a estrela, que integra o elenco de Corrida dos Bichos, realizado por Fernando Meirelles, em parceria com Rodrigo Pesavento e Ernesto Solis, e com estreia marcada para 7 de agosto na Prime Video.
Gagliasso acredita que essa dimensão íntima foi decisiva para construir a sua interpretação, tanto que, ao ser questionado sobre o que existe de invenção pessoal em Honestino, respondeu que há muito de si próprio na composição, sobretudo por partilhar os mesmos ideais. “Eu acredito em tudo o que ele acreditava e lutava por tudo o que ele lutava.”
Mas a resposta definitiva chegou após uma exibição do filme. Gagliasso recorda o encontro com a viúva de Honestino, que o abraçou, emocionada, e lhe disse que ele caminhava exatamente como o marido. O ator admite que nem sequer tinha registos do líder estudantil a andar. “Eu não sei como fiz isso. Nunca vi um registro dele andando. Fiz com uma verdade muito grande. Fiz com amor. Fiz com vontade de mudar o mundo. Acho que foi essa vontade de mudar o mundo que me fez criar o Honestino.”
Aurélio Michiles vê esse processo como a essência da interpretação cinematográfica. Para o realizador do estado do Amazonas, o ator é alguém capaz de transformar a própria natureza em matéria dramática. “No ator habitam o amor e o ódio, anjos e demônios. Quando faz um vilão, oferece o pior de si. Quando faz um herói, oferece o melhor de si para que as pessoas possam se espelhar. Essa é a grande responsabilidade da arte.”
Na avaliação do realizador de produções aclamadas como Segredos do Putumayo (2022) e O Cineasta da Selva (1997), Bruno Gagliasso construiu uma carreira marcada precisamente por essa capacidade de transmutação. “Ele já fez traficante, garoto rico, torturador perverso e agora um líder estudantil. Ver essa capacidade num ator brasileiro é uma coisa extraordinária.”
Esta troca entre realizador e ator explica o raro equilíbrio que Honestino encontra entre documento e emoção. Enquanto os arquivos reconstroem um dos episódios mais violentos da repressão política brasileira, a ficção devolve corpo, voz e sensibilidade a um jovem cuja memória se resume frequentemente ao desaparecimento. Michiles e Gagliasso preferem recordar que, antes de se tornar mártir, Honestino Guimarães foi um rapaz que escrevia poemas, cultivava amizades e acreditava que o país ainda podia ser transformado. É precisamente essa humanidade que faz do filme um gesto de memória, mas também um convite ao presente.

