Entre o real e a ficção: Lila Pinell regressa ao universo de “Le Roi David” com “Shana”

(Fotos: Divulgação)

Vencedor do Coup de Cœur da SACD, após estreia na Quinzena de Cineastas em Cannes, Shana é um regresso, cinco anos depois de Le Roi David, de Lila Pinell à personagem que revelou Eva Huault.

Expandindo o retrato fragmentado e contemporâneo da juventude parisiense, Shana acompanha uma jovem mulher em permanente deriva emocional, dividida entre amizades, relações tóxicas, heranças familiares e uma identidade que nunca parece totalmente fixa.

O C7nema conversou com Lila Pinell sobre ficção construída a partir do real, relações de dependência emocional e a dificuldade de transformar vidas contemporâneas em cinema sem cair no puro naturalismo.

Lila Pinell | Foto por Runawaymo

Tive a sorte de encontrar por acaso Le Roi David, na Arte, e achei essa média-metragem magnífica. Este filme parece-me quase uma continuação desse trabalho…

É a continuação.

Era importante para si acompanhar esta personagem alguns anos mais tarde?

Sim, porque queria voltar a filmar com ela e aprofundar certas temáticas. Mas não podia retomar a personagem exatamente onde a tinha deixado: eu tinha mudado, ela tinha crescido, muita coisa se tinha transformado. Então imaginei o que lhe teria acontecido cinco anos depois de Le Roi David, quando já tentava separar-se de um homem. Cinco anos depois continua com ele — quer dizer, ele está na prisão, por isso não exatamente com ele. 

Quando escreveu o argumento, já tinha a Eva na cabeça? Existiu diálogo entre vocês durante a escrita?

Sim. Conhecemo-nos há muito tempo, falamos imenso e partilhamos muito das nossas vidas uma com a outra. Ela contou-me muitas coisas sobre si, conheci os amigos dela, as pessoas à sua volta, e havia algo de muito interessante na forma como estas jovens vivem hoje. 

Tudo o que conto no filme está ligado a algo real — dela ou das amigas. Não é exatamente só sobre ela, mas uma mistura de várias experiências. Sinceramente, acho que não há nada inventado. 

Então como fazer ficção sem cair no documentário?

Porque nada aconteceu exatamente assim à Eva. É uma mistura de experiências de várias raparigas. E, sobretudo, porque continua a ser uma ficção — está escrita. O importante para mim era precisamente fazer ficção a partir de algo que existe realmente. 

Há uma dimensão identitária muito forte na personagem — ela é marroquina, judia, e há um momento em que se posiciona a favor da Palestina. Como trabalhou isso no argumento?

Queria falar sobre transmissão e sobre aquilo que passa dentro de uma família. Acho que acontece em todas: queremos transmitir certas coisas, mas elas acabam deformadas, desviadas, ou então transmitimos precisamente aquilo que não queríamos transmitir.

Nesta família — e observei isso na realidade — talvez a avó, judia marroquina, tenha vergonha de ser árabe por causa das dores e do sentimento de ter sido despojada de algo. Então entra numa forma de negação do outro. Tem vergonha de ser árabe.

E aquilo que transmite à neta é precisamente esse sentimento de vergonha, só que deslocado: a neta vai senti-lo em relação à identidade judaica. No fundo, é a mesma questão — um problema de identidade.

Filma em bairros muito específicos. O que a atrai a esses lugares?

O que gosto nesta personagem é precisamente o facto de ela atravessar muitos bairros diferentes. Gostava da ideia de mostrar Paris como uma cidade de enorme diversidade cultural, social e religiosa.

Tudo existe dentro desta cidade. Basta apanhar o metro e passamos subitamente de turistas e prédios elegantes para zonas muito mais populares. Esta personagem permitia-nos atravessar todos esses espaços.

Quando escreveu o argumento já tinha a estética do filme na cabeça?

Sim. Sabia que queria filmar em 16 mm, com planos bastante fixos, sem câmara na mão. E queria imagens que parecessem quase quadros, imagens bíblicas. Isso estava muito claro desde o início.

Acha que um grupo de raparigas cria laços diferentes de um grupo de rapazes?

Não conheço os grupos de rapazes por dentro. Mas acho que entre raparigas falamos muito umas com as outras e tentamos constantemente compreender as nossas experiências através das experiências das outras. É isso que cria os laços de amizade: sermos reconfortadas por histórias que se parecem com aquilo que nós próprias vivemos.

Acho que as mulheres se constroem muito assim. Ganham estabilidade através das amigas. Ela tem muitas amigas e eu também. É algo que partilhamos.

O noivo dela é uma figura claramente tóxica. Queria trabalhar essa dimensão emocional e criminosa ao mesmo tempo?

Essa personagem nasceu muito das conversas que tive com a Eva e com outras raparigas da idade dela. Percebi que muitas viviam relações assim: separam-se, voltam, o rapaz faz algo cada vez mais grave, mas a relação continua. Existe uma forma de dependência emocional muito forte.

E o mais impressionante era a forma completamente desdramatizada como elas falavam disso. Não era apresentado como um grande acontecimento, apenas mais uma coisa da vida, ao lado de outros dramas. Queria filmar isso dessa forma, sem dramatização excessiva.

Isso significa que a ideia de amor para sempre desapareceu?

Pelo contrário. O que vejo são jovens mulheres convencidas de que encontraram “o homem da vida delas” e que por isso é preciso continuar sempre a tentar remendar tudo, mesmo quando talvez fosse melhor desistir.

Qual foi o maior desafio deste filme?

O financiamento. Nunca tinha feito um filme que exigisse tanto dinheiro. E há uma coisa que me chocou profundamente: enquanto um filme não tem todos os financiamentos fechados, ele pode simplesmente nunca existir, mesmo que alguém tenha passado quatro anos a escrevê-lo. Isso parece-me louco.

Com Le Roi David era diferente. Era uma curta feita com poucos meios. Em documentário também podemos simplesmente pegar numa câmara e filmar.

Numa longa-metragem não. Há equipas, salários, toda uma estrutura impossível de improvisar.

Consegue imaginar fazer um próximo filme sem a Eva?

Sim, claro. Embora adorasse continuar a trabalhar com ela. Mas agora tenho vontade de mudar.

Mudar como?

Ainda não sei exatamente. Mas tenho também uma série para a Arte Créative em preparação, passada num salão de cabeleireiro afro em Paris.

É uma ficção?

Sim. Mas com verdadeiras cabeleireiras, não atrizes conhecidas.

O cinema continua a ser a prioridade?

Não penso assim. Estou aberta a todos os formatos. O que me interessa é esta relação com o real: encontrar coisas na vida e transformá-las em ficção.

Depois, se isso toma a forma de um filme, série ou outra coisa qualquer, já não é o mais importante.

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