Os filmes sobre a escravatura num registo de emancipação e “luta pela sobrevivência”, objeto de vasta atenção nos EUA (no cinema e TV), nunca tiveram um paralelo semelhante (no interesse de produção) no velho continente e particularmente em França, embora existam alguns exemplares como “Passage du milieu”, de Guy Deslauriers, e “Sucre amer” de Christian Lara, os quais certamente inspiraram o franco-beninense Simon Moutaïrou, na sua primeira realização no formato de longa-metragem, a assinar “Ni chaînes ni maîtres” (“Sem Amarras”).

A verdade é que o chamado “descolonizar a mente” começou tardiamente no continente que globalizou o comércio de escravos, por isso, termos que até surgiram para falar do tema da sua chegada ao audiovisual, como “slavexpoitation”, empacotam este tipo de filmes quase como um subgénero. “Mandingo”, de Richard Fleischer, as séries “Roots”, “The Underground Railroad” e até “Norte e Sul”,  além de filmes como “Amistad”, “12 Years a Slave”, “Django Unchained” e o recente “Emancipation” são reflexos claros de um olhar sobre a questão, que parte de personagens pessoais para falar de um coletivo.

Passado no século XVIII, naquilo que conhecemos atualmente como Ilha Maurícia (Ile de France na época), um tempo em que a crença generalizada (e oportunista) era que os negros “não tinham alma” e que foram criados por Deus ao quinto dia, junto com animais, ficando para o sexto a criação do homem (o seu mestre), “Ni chaînes ni maîtres” não tem receio em falar e mostrar (graficamente= a violência colonial, mesmo que nas sombras do estabelecido já exista uma geração mais nova, como a retratada pelo filho do responsável pela plantação que abarca escravos neste filme, onde as ideias iluministas florescem num combate ao designado erroneamente pela ordem biológica, religiosa e política da época.

Ni chaînes ni maîtres

Em particular seguimos Massamba (Ibrahima Mbaye Tchie, soberbo) e Mati (Anna Thiandoum), pai e filha reduzidos à escravidão na plantação de Eugène Larcenet (Benoît Magimel a provar que é um dos atores franceses mais interessantes do panorama atual). De forma a sobreviver perante a sua condição, num ato igualmente de proteção à filha, Massamba é instruído a falar francês pelo filho do patrão, o qual o transforma laboralmente em Cícero, um capataz que faz com que os escravos africanos (Uolofes e outras etnias) continuem a produzir cana-de-açúcar. Já Mati recusa-se a submeter-se à escravidão, arriscando castigos atrás de castigos (sob a lei do chicote, ou cortes de orelhas, antes da morte) num ato de resiliência. Quando Eugène declara que a jovem vai sair de casa do pai e ir viver com ele na casa, a mulher encara como saída a fuga, iniciando uma perseguição por parte das autoridades, que enviam uma beata caçadora de escravos, Madame La Victoire (Camille Cottin, em estado de graça) e os seus dois filhos para a captura. Na mente destes dois escravos está a ideia que existe uma comunidade nos confins da floresta onde os escravos que escaparam se juntaram e formaram uma comunidade, partindo os dois, em tempos diferentes (primeiro ela, depois o pai no seu encalço), na busca desse local, com tantos contornos místicos como físicos. 

Numa primeira incursão na realização (é importante voltar a mencionar isto), e com o objetivo de atingir o máximo número de espectadores que se juntem a esta jornada de luta pela liberdade, Simon Moutaïrou segue as vias do academicismo formal para contar a sua história que também se inspira na famosa “Controvérsia de Valladolid”, jogando sistematicamente entre o drama de emancipação e o thriller de aventura sombria, visualmente e sonoramente impactante, mas derivativa e com pouco (ou nada) de verdadeiramente seu (único), além do desejo de contar a história. Não sabendo bem como casar misticismo/espiritualidade e realismo além de imitar ferramentas do cinema convencional de pretensões para massas, o filme nunca se eleva na sua veia artística como o faz no trilhos da História, mas não envergonha de forma alguma quem o concebeu, nem o maravilhoso conjunto atores que transcrevem um episódio  urgente do colonialismo europeu que deve desconstruir os seus erros.

Por tal, “Ni chaînes ni maîtres” merece uma olhadela, mas falta requinte (maturidade e marca pessoal) em colocar em cena factos, História e poesia com maior identidade e lucidez.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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