Apaixonado pela América Latina desde os anos 1980, quando realizou “Salvador” (1986), Oliver Stone engatou uma carreira prolífica como documentarista a partir de 2003, quando fez de uma entrevista com Fidel Castro matéria viva para o filme “Comandante”. Passou a se especializar, a partir dali, em filmes sobre grandes líderes do continente que teve colonização ibérica. São longas-metragens calcadas em grandes conversações e ilustradas por imagens de arquivo, numa estética conservadora, mas funcional. O que faz são perfis, quase sempre moderados por um olhar retórico no qual defende a grandeza épica das suas personagens. É esse o caso de “Lula”, lançado no Festival de Cannes, e correalizado por Rob Wilson. A fotografia de João Atala e Lucas Fuica refina plasticamente este ensaio sobre a perseverança de um estadista que vem da classe operária.
Para olhares brasileiros, a produção promove um inventário de cicatrizes recentes, esmiuçando com minúcia as situações envolvendo a carreira de Lula como presidente de 2003 a 2010 e a sua eleição mais recente, em 2022. Para olhares estrangeiros, trata-se de uma aula de História delicada e paciente, que vai e volta em questões que envolvem o jogo de corrupções na chamada Operação Lava-Jato. Stone destina 75% da película às tramitações dessa investigação que mobilizou a Polícia Federal no Brasil.
Antes dela, ele faz uma radiografia da trajetória de Lula a partir da infância pobre em Pernambuco até chegar ao seu histórico de militância sindical no ABC Paulista. “Para um pobre, um dólar tem muito valor. Com 1 dólar ele não vai comprar ações, vai comprar comida”, diz Lula no filme, ao avaliar a relação do Brasil com os Estados Unidos que, segundo ele, foi mais dura nos tempos de Obama do que na gestão George W. Bush – tema do filme “W”, de Stone.
O encontro do cineasta com Lula aconteceu pouco antes de ele ser eleito, há dois anos. Os dois falam muito do futuro e fazem um balanço do Brasil que ele espera construir, na idade que tem. Em paralelo, Stone dá a palavra ao jornalista americano Glenn Greenwald, que fez uma triagem dos fatos envolvendo a Lava-Jato, sobretudo a cobertura nem sempre isenta da imprensa no Brasil. A passagem de Greenwald pela fita cria uma espécie de trama paralela, que não destoa do tom biográfico central. Nela, o que se vê é o papel dos media na construção, na destruição ou na manutenção de um ícone.
Nos moldes do que sempre fez em seus filmes de ficção, Stone aposta numa montagem ágil, quase taquicárdica, que dá a “Lula” um tom de thriller, conservando assim sua marca autoral.




















