Como se sabe, Portugal e vários outros países eurocêntricos colonizaram nações africanas e latino-americanas, para ficar só nestes dois continentes. E, deste passado maldito para quem foi colonizado, ainda há muita coisa por se resolver, por se reparar.
Em abril de 2024, Marcelo Rebelo de Sousa, atual Presidente de Portugal, finalmente reconheceu a responsabilidade do país pelos crimes cometidos durante a era colonial, sugerindo o pagamento de reparações pelos erros do passado: ”Temos de pagar os custos. Há ações que não foram punidas e os responsáveis não foram presos. Há bens que foram saqueados e não foram devolvidos. Vamos ver como podemos reparar isto”. Um ano antes, ele igualmente defendeu publicamente que Portugal devia um pedido de desculpas e deve assumir a responsabilidade pela exploração e escravatura no período colonial: ”Não é apenas pedir desculpa, por aquilo que fizemos, porque pedir desculpa é às vezes o que há de mais fácil. Mas é assumir a responsabilidade daquilo que de bom e de mau fizemos no passado“. Vamos aguardar para ver quando isto acontecerá e de que forma se darão as reparações. Que venham antes tarde do que nunca!
Ao longo de cerca de quatro séculos, estima-se que aproximadamente 12 milhões de pessoas africanas foram levadas à força para longas viagens em porões de navios e em condições subumanas, por mercadores, na sua maioria europeus, e vendidas como escravos. Nestas viagens, parte destas pessoas tiveram como destino o Brasil, onde cerca de 6 milhões de pessoas foram escravizadas por Portugal – que colonizou o Brasil de 1500 a 1822. O número de viagens para as terras brasileiras foram crescendo à medida que a exploração económica da Corte Portuguesa, com base no trabalho escravo, avançava, no Nordeste, no cultivo do açúcar; em Minas Gerais (a minha região de origem), na extração de ouro; e em São Paulo, nas plantações de café. O comércio de pessoas negras era altamente lucrativo e desumano. E todo o processo de colonização e escravatura gerou muito racismo, seja no Brasil ou em Portugal, algo que infelizmente ainda perdura.
Nenhum outro país recebeu tantos africanos escravizados como o Brasil. Somente a 13 de maio de 1888 o tráfico foi proibido, data em que finalmente foi sancionada a abolição da escravatura em território brasileiro, diante da luta e reivindicação do povo brasileiro. Os portugueses foram os primeiros a iniciar o comércio de escravos no Atlântico. Uma das primeiras viagens registadas da escravatura, ocorreu em 1514, quando um navio português partiu do Rio Congo com 400 pessoas africanas rumo a Lisboa. Os traficantes portugueses fizeram fortunas e até ganharam títulos de nobreza em Portugal, especulando-se que os herdeiros dessas famílias beneficiam até hoje desta riqueza. Até 1650, eram portugueses, dois em cada três navios, que comercializavam escravos pelo mundo. O gráfico a seguir ilustra os países colonizadores que no longínquo passado fizeram mais viagens de tráfico humano.
É sobre este assunto, sobre memórias coletivas históricas coloniais que muitos querem esquecer ou apagar, e que precisam ser revistas e reparadas, que trata o primoroso documentário ensaísta “Contos do Esquecimento” (2023), de Dulce Fernandes. A segunda longa-metragem da argumentista e realizadora angolana, igualmente cidadã portuguesa. Ela nasceu em Angola no início dos anos 1970, na altura que o território estava sob o domínio colonial português. Filha de portugueses numa terra ocupada e explorada durante séculos. Um passado marcado pela experiência colonial portuguesa, cujo filme investiga os rastos deste tempo e como tais marcas ainda perduram no presente.
“Numa manhã quente de verão em 1444, na aldeia piscatória de Lagos, no sul de Portugal, foi desembarcado um grupo de pessoas africanas. No campo junto ao porto, foram entregues como escravos aos nobres e comerciantes locais. Durante os 400 anos seguintes, mais de seis milhões de africanos seriam traficados em navios portugueses para a Europa e para o outro lado do Atlântico. Numa tarde chuvosa de inverno de 2009, em Lagos, arqueólogos que escavavam o local onde estava a ser construído um parque de estacionamento subterrâneo, começaram a encontrar esqueletos humanos. Trabalhando no local durante os cinco meses seguintes, enquanto o parque de estacionamento estava a ser construído à sua volta, os arqueólogos descobriram os esqueletos de 158 homens, mulheres e crianças africanos escravizados. Os seus corpos tinham sido depositados numa lixeira do século XV. Contos do Esquecimento entrelaça essas duas histórias de violência e brutalidade do passado com imagens e sons do presente. Evoca o que aconteceu nestes locais, revelando estas memórias”. E esta é a sinopse do filme.
O filme de Dulce é mais do que necessário, toca numa ferida de longo tempo, lesão que deixou consequências profundas em muitos corpos de pessoas negras e que ainda não cicatrizaram. Uma obra fílmica de muita pesquisa, que atualiza uma memória colonial histórica, que não deve ser apagada ou desprezada.
Não são muitos os filmes que retratam a escravatura portuguesa. Além do filme da Dulce, em 2024, o cineasta português José Barahona (que faleceu em novembro desse mesmo ano) estreou “Sobreviventes” (um olhar sobre os portugueses colonialistas e a escravatura, a partir da história de um naufrágio), filme que ainda não tive a oportunidade de ver.
É urgente que aqueles que governam Portugal falem disso e reparem este passado, que o incluam na história oficial. E que mais cineastas retratem e desvelem questões ligadas à escravatura e a época colonial, e que, assim como Dulce, confrontem o esquecimento destas memórias indeléveis. E chamem a atenção para o papel de Portugal no tráfico transatlântico de pessoas da África.
Felizmente e como bem relata Dulce: “novas vozes começam agora a ocupar o espaço público em Portugal, desafiando estas narrativas ficcionais de uma gloriosa história colonial e apelando ao exame da história do país. Em Portugal, como noutros locais das margens do Atlântico, já não é possível ignorar este passado“.
Não vemos no filme imagens de pessoas escravizadas, reproduzir a violência não é o que importa. Dulce coloca em evidência questões relacionadas com esta memória e, na montagem, alterna camadas de imagens e informações, valendo-se de materiais de arquivo textuais e ilustrações; da narração em off (de três mulheres, incluindo a voz da própria realizadora); do uso dramático e criativo do som (Armanda Carvalho) e da poética pictórica e sensorial das imagens filmadas na natureza, destacando o movimento incessante e poderoso das águas do mar, que também transportam pessoas e coisas. Juntamente com a habilidade e sensibilidade da realizadora para relacioná-los, ela vai deixando ao espectador a possibilidade de rever, repensar este passado, de se incomodar, e quem sabe se rebelar contra aquilo que não viu, mas sabe que historicamente existiu.
Entretanto, pontuo que “Contos do Esquecimento” não traz em si uma narrativa visível aos olhos comuns. A sua estética é bastante formal, transformando-se num desafio para as pessoas que não estão habituadas a um cinema formalista, embora a realizadora explica/ narra muita coisa usando a voz off. A temporalidade dos planos longos e muito lentos, conjugados com uma criadora e subtil tensão sonora, dá-nos tempo para perceber e refletir de modo crítico aquilo que está no interior e para além dos enquadramentos das imagens do filme. Uma estética que lembra os primorosos filmes políticos e sensoriais da cineasta portuguesa Susana de Sousa Dias. O presente destas imagens convoca-nos a “lembrar para não esquecer”, a olhar de modo atento para esta memória, para as feridas que causam dor a um mar de pessoas que ainda hoje esperam que os males da escravatura sejam reparados pelos colonizadores.
De acordo com Paul Ricoeur, no livro “A Memória, a História e o Esquecimento”, não temos nada melhor do que a memória para nos assegurar de que alguma coisa se passou antes que declarássemos nos lembrar dela. A narrativa do filme de Dulce faz-nos lembrar de algo forte e pode exercitar em nós alguma reação a essa lembrança, alguma coisa que nos movimente e que, no mínimo, desloque o olhar habitual sobre ela. “Contos do Esquecimento” lembra-nos, portanto, de algo que não devemos esquecer: a tragédia humana que foi a escravatura e o período colonial português, convocando-nos a lembrar deste passado e não apagá-lo, aceder a ele para promover a reparação e não para perpetuar no presente o que daquele tempo não podemos nem apoiar, nem aceitar.
Segundo Dulce Fernandes: ’’O impulso inicial para desenvolver Contos do Esquecimento encontra-se num sentimento de recusa em aceitar a negação coletiva em torno do papel de Portugal no tráfico transatlântico de escravizados. Enquanto crescia, ensinaram-me na escola que Portugal é um país com uma grande história marítima, uma nação de gloriosos marinheiros que enfrentaram mares desconhecidos para descobrir o mundo. O luso-tropicalismo, um eufemismo desenvolvido nos últimos anos da ditadura que governou Portugal até à revolução de 1974, afirma que os portugueses tinham uma inclinação especial para se adaptarem aos trópicos, para se misturarem com outros povos e culturas, criando assim um império ultramarino de paz racial e desenvolvimento fraterno como nenhum outro”.
“Contos do Esquecimento” tem a duração de 63 min, foi produzido pela Kintop e Ukbar, teve a sua estreia internacional no IDFA – Festival Internacional de Documentários de Amsterdão (Países Baixos), e em Portugal estreou na Competição Nacional do IndieLisboa 2024, onde recebeu o prémio Árvore da Vida – Menção Especial. Foi exibido em outros festivais pelo mundo. O documentário estreia nas salas de cinema portuguesas a 3 de julho, distribuído pela Madame Filmes.
A exibição é antecedida pela curta-metragem “Time To Change” (também sobre o colonialismo; e feito com imagens em preto e branco do Arquivo Ultramarino ), da realizadora Pocas Pascoal.
A não perder os dois filmes!



















