“The Guest” abalroa Karlovy Vary: “O drama pertence ao grande ecrã”

(Fotos: Divulgação)

Já com um vasto conjunto de curtas-metragens e séries de televisão no currículo, o dinamarquês Mads Mengel estreia-se nas longas-metragens com The Guest, um drama intenso sobre um encontro familiar que se desmorona após a chegada de uma convidada inesperada.

Desde Festen (1998), de Thomas Vinterberg, que o espectador comum sabe que os encontros familiares podem despertar os demónios internos de uma família, especialmente quando o convívio assenta em ressentimentos mal resolvidos. Mengel não esconde essa influência, até porque Trine Dyrholm, uma das presenças marcantes do clássico de Vinterberg, regressa aqui a uma nova reunião familiar. É ela agora a convidada indesejada.

Na corrida ao Globo de Cristal, o prémio máximo do certame, no centro de The Guest está Karl, interpretado por Simon Bennebjerg, um homem que tenta manter uma vida estável depois de uma infância marcada pela instabilidade. A chegada a uma festa de celebração de Vibeke, a mãe de Karl, vivida por Trine Dyrholm, perturba esse equilíbrio frágil e obriga a família a confrontar-se com as feridas antigas. No meio destas duas forças em oposição, encontramos ainda Josephine Park como a irmã de Karl, que tenta moderar de alguma maneira o conflito.

À conversa com o C7nema, em Karlovy Vary, Mads Mengel falou-nos da influência de Festen, da construção da dinâmica familiar, da importância da ambiguidade e do suspense, além da sua vontade em defender o drama no grande ecrã, num momento em que tantas histórias semelhantes parecem ter migrado para as séries.

Quando li a sinopse, a primeira coisa que me veio à cabeça foi Festen (1998), de Thomas Vinterberg. Aliás, hoje, sempre que vemos uma festa com um convidado inesperado, pensamos logo que alguma coisa vai correr mal. Como nasceu este projeto?

Adoro Festen. Cresci com esse filme. Acho que tinha uns seis anos quando saiu e, na Dinamarca, como em muitos outros lugares do mundo, é considerado um dos melhores filmes alguma vez feitos. Por isso, estaria a mentir se dissesse que não fui influenciado por ele.

Sempre pensei que queria fazer algo assim, uma reunião de pessoas que são juntas de alguma forma mas estão presas ao que se pensa delas. Mas o ponto de partida do projeto foi uma conversa com o meu parceiro de escrita, Christian Bengtson. Falámos muito sobre temas que nos interessavam e sabíamos que queríamos fazer algo sobre a família e a sua complexidade.

Depois começámos a trabalhar no filme e, cerca de um ano mais tarde, tornámo-nos ambos pais. Como acontece a muitas pessoas, isso mudou a nossa perspetiva sobre a vida e, sobretudo, sobre a família, o passado e os arrependimentos. O filme ganhou então outra forma, mais próxima daquela que acabou por ter. De certa maneira, reflete as nossas próprias vidas e aquilo em que estávamos a pensar.

Quando começou a trabalhar no projeto?

Começámos a falar dele há quatro ou cinco anos. Trabalhámos no filme de forma intermitente durante esse período. Eu estava muito ocupado com outras coisas, por isso houve pausas no processo. Mas era o projeto onde o nosso coração estava mais.

Depois esperámos pelo financiamento, tentámos encontrar os atores certos, e por aí fora. Até que, finalmente, tudo se alinhou e conseguimos fazer o filme no ano passado, o que foi uma alegria.

Quando escreveu o filme, já tinha alguém em mente para os papéis principais?

Tinha o Simon Bennebjerg em mente. Conheço-o bastante bem, ele interpreta Karl, a personagem principal, e acho-o um ator extraordinário. Quase desde o início soube que ele tinha de ser o protagonista.

Começámos por ele e, lentamente, fomos chegando às irmãs e à mãe. O meu produtor, Victor, que é maravilhoso, perguntou-me: “Se pudesses sonhar, que atriz gostarias de ter no papel da mãe?” E eu respondi: “Bem, Trine Dyrholm, claro.” Mas, para ser honesto, não pensei que ela fosse dizer que sim, porque esta era a minha primeira longa-metragem.

Ela leu o argumento e quis encontrar-se comigo. Tivemos uma boa reunião. A Trine é tão maravilhosa como ser humano quanto é extraordinária como atriz. Disse que sim e nós não queríamos acreditar na nossa sorte.

Também trabalhei antes com Josephine Park, que interpreta a irmã, e adoro-a como atriz. Acho que esses três, e na verdade todo o elenco, são incríveis. É aquilo de que mais me orgulho: ter escolhido estas pessoas para interpretar estas personagens.

Era importante criar uma dinâmica familiar muito específica. Como trabalhou isso com os atores?

Conversámos muito. Eles leram muitas versões do argumento, ensaiámos bastante e filmámos algumas cenas de teste. Fizemos, por exemplo, uma cena de jantar que não está no filme, para tentar encontrar o fluxo certo, a forma como falavam uns com os outros.

Era muito importante para mim que a forma como agiam e falavam entre si parecesse o mais real possível. Nenhuma personagem podia dizer algo que a outra obviamente já saberia, como: “Olá, irmã, não te vejo há cinco anos. É bom voltar a ver-te.” Não podiam falar assim. Tinham de falar como pessoas reais.

Também não queríamos flashbacks. Por isso, tínhamos de conseguir expressar aquilo por que tinham passado, e o peso do passado, através da forma como se comportavam uns com os outros. A colaboração com os atores foi uma parte essencial para que isso resultasse.

Para todos nós era também muito importante que não houvesse vilões nem heróis neste filme. São todos tons de cinzento, nuances. Se o espectador vê o filme e a sua simpatia muda de cena para cena, ou até dentro da mesma cena, então acho que o filme está a fazer o seu trabalho.

O filme é permanentemente ambíguo. Há uma cena em que o filho não acredita que a mãe tenha os comprimidos na mala, mas, ao mesmo tempo, sentimos nela uma deceção quando olha para ele e diz que ele se tornou vendedor de carros. Podia ser qualquer mãe, mesmo sem problemas do foro psiquiátrico, a sentir-se desiludida com o filho. Como trabalhou esse equilíbrio entre doença, frustração e ausência de filtros?

Foi um processo colaborativo com os atores e o argumentista. Falámos muito, tentando explorar quem eram estas personagens.

Uma parte importante da Vibeke, que fomos descobrindo, é que a forma dela expressar amor pelos filhos passa por ter grandes ambições para eles. Ela quer que vivam livres, que experimentem a vida. Mas não percebe que a forma como se comporta talvez torne isso impossível.

Ela ama-os muito e quer que se sintam livres. Quando percebemos que Karl tinha de ser vendedor de carros, a deceção surgiu naturalmente em Vibeke. Sabíamos que ela não queria que ele fosse assim. Já ele quer uma vida estável porque não teve uma infância estável.

Foi um processo lento, mas muito bom. Gostei de cada segundo de trabalho com estes atores.

Ao drama familiar junta-se uma forte dimensão de thriller, com a música a puxar por essa tensão. Como trabalhou essa infiltração do suspense dentro do drama?

Falámos muito sobre isso. O filme joga sempre com a pergunta: o que vai acontecer a seguir?

A sociedade dinamarquesa, e acho que muitas sociedades, é bastante educada. Somos muito polidos, sobretudo quando estamos numa cerimónia, num hotel, nesse tipo de contexto. Queríamos jogar com isso: quando é que se rompe essa delicadeza para controlar a situação? Quando podemos fazê-lo? Quando deixamos de o fazer?

O filme está sempre a trabalhar com essas tensões. Identificámos algumas cenas em que queríamos que o público ficasse no limite, em dúvida sobre o que iria acontecer. Isso era importante para compreender os dois irmãos e as emoções que os atravessam. Acho que o público também precisava de se sentir inseguro em relação ao que podia acontecer, porque esse é o estado mental deles durante todo o filme, e talvez durante toda a vida.

Trabalhámos com Lasse Aagaard, que é um músico e compositor maravilhoso. Desde cedo soubemos que, quando houvesse música no filme, não poderia haver dúvida de que havia música. A música tinha de ser expressiva e direta na sua narrativa. Quando é stressante, é stressante. Quando é alegre, é alegre. Quando há excitação, torna-se thriller.

Isso sente-se logo no início, quando vemos o carro em alta velocidade na estrada, com aquela fivela a bater no asfalto. Ficamos imediatamente nervosos.

Exatamente. Era esse o objetivo desde o início. Queríamos uma cena de abertura em que se percebesse que alguma coisa está errada, que algo está prestes a acontecer.

Na verdade, durante bastante tempo no filme, nada de realmente mau acontece. Mas, por causa desse início e dessa explosão expressiva, o público percebe que as coisas não são o que parecem. Leva essa pressão consigo para todas as cenas seguintes. Acho que isso torna o filme mais interessante.

Trine Dyrholm em The Guest

Tenho visto muitos filmes europeus, e em particular escandinavos, sobre a família. Até o filme que venceu a Palma de Ouro, apesar de assinado por um cineasta romeno, fala da família na Noruega. Aqui em Karlovy Vary, outro filme abordava também as relações entre pais e filhos. Sente que existe hoje um novo interesse por estes conflitos familiares?

Acho que sim. Durante muitos anos, talvez todos tenhamos acreditado neste projeto global, em que éramos todos cidadãos globais juntos. Agora começamos a ver que isso está a desmoronar-se. Por isso, lentamente, estamos a olhar de novo para dentro. Onde pertenço? Qual é a minha identidade? Para muitos de nós, a família é a resposta a isso.

Os filmes refletem as emoções do tempo e das sociedades. E acho também que, na Escandinávia, como em todos os lugares frios do mundo, temos invernos duros. Crescemos com isso há centenas, milhares de anos. Sempre fomos obrigados a ficar juntos debaixo de pequenos tetos. Acho que está no nosso ADN olhar uns para os outros à volta do fogo e pensar: “Quem raio és tu?”

No futuro, é este o cinema que quer continuar a fazer? Tem uma ideia clara dos filmes que quer realizar ou avança mais por intuição?

É mais uma questão de intuição, penso eu. Mas adoro drama. Acredito que o drama pertence ao grande ecrã. Sei que as séries também fazem drama muito bem, e houve um período em que parecia que o drama estava a morrer no cinema, mas não acho que isso deva acontecer.

Acho que o drama pertence ao grande ecrã. Terei sempre um lugar especial no coração para os dramas, porque são sobre pessoas a interagir com pessoas. E é isso que a maioria de nós passa a vida a fazer. Portanto, de uma forma ou de outra, para mim haverá sempre drama e personagens em primeiro lugar.

Qual foi o maior desafio que enfrentou? Foi mais artístico ou financeiro?

Na parte financeira, tivemos algumas dificuldades no início. Tivemos de lutar para fazer um drama para o grande ecrã, porque, quando começámos este projeto, toda a gente estava a fazer séries. Havia uma nova série todos os dias.

A pergunta era: porquê fazer isto no cinema? Numa série, podes passar dez horas com as personagens, podes ter sete personagens, podes aprofundá-las muito. Por que razão fazer isso em apenas uma hora e meia, no grande ecrã, onde não tens tanto tempo?

Tivemos de defender por que achávamos que o filme devia ser feito para o grande ecrã e por que era importante ter essa experiência coletiva de ver drama juntos, numa sala de cinema. Esse foi um dos maiores desafios financeiros.

Do lado criativo, trabalhámos muito tempo neste projeto. Tínhamos personagens e temas interessantes, e explorámos muita coisa. Por isso tínhamos muito material. Perceber o que não era necessário para contar a história e cortar coisas, mesmo durante a escrita, foi muito difícil. Tive de matar muitos “darlings”.

Já tem um novo projeto?

Sim, estou a trabalhar nele neste momento com Christian Bengtson, o meu argumentista. É sobre o estado do jornalismo. Um drama com elementos de thriller.

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