Num momento em que o audiovisual brasileiro procura consolidar os mecanismos de sustentabilidade industrial e ampliar a sua força de projeção internacional, o Rio de Janeiro tenta posicionar-se como um dos principais centros criativos da América Latina. Foi nesse contexto que o presidente da distribuidora (e fomentadora de produção) RioFilme, Leonardo Edde, apresentou nesta sexta-feira, no fórum Rio2C 2026, um amplo retrato da expansão do sector audiovisual carioca. Expôs o seu plano de ação enquanto o presidente da Câmara Municipal do Rio (o prefeito) Eduardo Cavaliere anunciava um pacote de investimentos de R$ 225 milhões (cerca de €38 milhões), até 2028, para políticas públicas, programas de financiamento e iniciativas de fortalecimento da cultura e das indústrias do cinema e da televisão.
Integradas no novo Plano de Cultura e Audiovisual da cidade, as medidas incluem linhas contínuas de financiamento, aceleração de processos burocráticos, estímulos à produção internacional e novos programas de internacionalização. A estratégia procura consolidar o Rio não apenas como cenário de filmagens, mas como ecossistema industrial completo, capaz de gerar emprego qualificado, atrair produções estrangeiras, expandir o turismo audiovisual e reforçar o chamado soft power brasileiro no exterior.

“Madrid investe milhões… e em euros… (no sector), mas o Rio não desiste nunca! Somos criativos! A nossa meta agora é passar Madrid, uma das cidades mais filmadas do mundo, e já estamos empatados”, orgulha-se Edde.
O produtor e gestor cultural levou ao Rio2C 2026 um amplo panorama sobre o momento da indústria audiovisual carioca, defendendo o sector como instrumento estratégico de desenvolvimento económico, projeção internacional e transformação social. Na conferência “Indústria Audiovisual Brasileira: sustentabilidade, soft power e desenvolvimento social”, Edde sublinhou o crescimento acelerado da atividade no Rio de Janeiro, apontando que o audiovisual movimentou R$ 4,7 mil milhões (cerca de €800 milhões) na economia carioca em 2025, com um crescimento de 61% face a 2020. Segundo os dados exibidos, cada real investido pela Prefeitura terá potencialmente gerado R$ 6,47 para a economia local entre 2021 e 2025.
Em depoimento por WhatsApp ao C7nema, Edde explicou que, além de o Rio voltar a bater o recorde de maior investimento da sua história no sector audiovisual, é importante sublinhar que se trata de um esforço da própria cidade, através da Prefeitura, e não apenas da RioFilme. “Nós voltamos a bater o recorde de maior investimento da história do Rio de Janeiro. E eu digo da cidade, não apenas da RioFilme, porque temos de falar da Prefeitura. A RioFilme é o mecanismo de investimento”, afirmou.
Segundo Edde, uma das grandes novidades do novo pacote é o RioFilme Invest, mecanismo concebido para gerar negócios com potencial de retorno financeiro para a própria empresa pública. “Os recursos da Política Aldir Blanc e os recursos que temos em parceria com o Fundo Setorial não geram retorno financeiro para a RioFilme. Então precisamos criar retorno para a empresa, ao mesmo tempo que procuramos sustentabilidade”, explicou.
O executivo confirmou ainda a continuidade da política de cash rebate, agora com um investimento de R$ 15 milhões (cerca de €2,5 milhões) destinado à atração de produções nacionais e estrangeiras. Para Edde, a sustentabilidade da indústria audiovisual depende diretamente da capacidade de consolidar receitas reais de mercado. “Nós só seremos verdadeiramente uma indústria quando formos sustentáveis, ou quando começarmos efetivamente a olhar para as receitas reais, ou seja, para o consumidor a consumir e para os players a licenciar e comprar conteúdos”, disse.
Além do RioFilme Invest e do cash rebate, Edde destacou a criação de uma nova linha específica para coproduções internacionais minoritárias, iniciativa que considera decisiva para a internacionalização do audiovisual brasileiro. “Acredito que a exportação e a internacionalização não passam apenas pelas coproduções maioritárias brasileiras, mas também por projetos estrangeiros que coproduzem com o Brasil”, afirmou.

Como exemplo, citou O Elefante na Névoa (Elephants in the Fog), produção associada à realizadora Tati Leite, destacando o percurso internacional do projeto após a passagem por Cannes. “É um exemplo de coprodução minoritária brasileira que está no mundo e que será vendida internacionalmente”, observou.
Edde defendeu ainda que a internacionalização passa tanto pela exportação de conteúdos quanto pela capacidade de atrair filmagens para o Rio de Janeiro. “Nós internacionalizamos os nossos produtos, internacionalizamos as nossas empresas e exportamos serviços quando promovemos o Rio de Janeiro e trazemos filmagens para cá, sejam produções originais dos streamings ou projetos que utilizem a cidade como localização”, explicou.
Segundo o presidente da RioFilme, esse movimento depende não apenas dos incentivos financeiros, mas também de investimentos estruturais na cidade. “Precisamos investir em cash rebates, em capacitação, em estúdios, em mão-de-obra qualificada e em todos os órgãos e instituições da Prefeitura alinhados para desenvolver o território”, concluiu.
Entre as novidades da sua intervenção no Rio2C esteve a implementação do RioFilme Invest, um mecanismo de investimento em filmes com potencial comercial.
“Nós precisamos ter um ciclo de investimentos e retorno, assim como o Fundo Setorial, no nosso orçamento. O que é grande potencial comercial? É praticamente qualquer coisa. Isto aqui não são apenas filmes de comédia. Um documentário tem grande potencial comercial. Um filme dito de arte também pode ter. Tudo vai ser analisado do ponto de vista do negócio. Às vezes, um grande filme de bilheteira pode não ter uma boa retenção comercial para a RioFilme, porque o negócio pode ser desfavorável. Aqui vamos analisar como uma empresa que pretende aferir lucros através do investimento”, explica Edde.
Na liderança da RioFilme, Edde estruturou a apresentação em torno de três pilares centrais da política audiovisual municipal: o fortalecimento industrial do sector, a afirmação do Rio como protagonista internacional e o papel multiplicador da RioFilme. Ao longo da palestra, destacou que a cidade já concentra 19% das produtoras brasileiras e quase 20 mil empregos formais ligados ao audiovisual, além de apresentar rendimentos médios muito superiores à média salarial fluminense.
Um dos pontos mais enfatizados foi a transformação do Rio numa das maiores plataformas de filmagens da América Latina. Edde mostrou que a cidade passou de 5.014 diárias de filmagem em 2021 para 10.930 em 2025, um crescimento de 117% no período. Comparando os números internacionais, o Rio já supera cidades como Paris e aproxima-se de Madrid e da Cidade do México em volume de autorizações para produções audiovisuais. O executivo recordou ainda grandes produções nacionais e estrangeiras filmadas na cidade, entre elas Ainda Estou Aqui (2025), Fast & Furious 5 (2011), Fast & Furious X (2023), Os Mercenários (2010) e a série Man on Fire (2026).
Edde insistiu ainda na ideia de que “o Rio não é apenas cenário”, defendendo a cidade como um ecossistema completo de produção. A apresentação detalhou os serviços da Rio Film Commission, incluindo apoio a filmagens estrangeiras, catálogos de localizações, guias de produção e mecanismos de facilitação burocrática para produções nacionais e internacionais. O executivo apresentou também iniciativas como o selo “Rio Film Friendly”, o programa “Destination Rio” e novas regulamentações destinadas a simplificar filmagens em equipamentos públicos.
Outro eixo forte da palestra foi a relação entre audiovisual e turismo. Edde citou estudos recentes que apontam o crescimento do chamado “turismo de ecrã”, fenómeno em que espectadores escolhem destinos influenciados por filmes e séries. Segundo os dados apresentados, dois terços dos turistas afirmam já ter sido influenciados por conteúdos audiovisuais na escolha de viagens.
A RioFilme surgiu na apresentação como agente multiplicador da economia criativa. Edde revelou que, entre 2021 e 2025, foram investidos R$ 285 milhões (cerca de €48 milhões) no sector audiovisual através da empresa pública, com potencial de atrair mais de R$ 845 milhões (aproximadamente €144 milhões) em retorno económico. Só o Programa de Fomento ao Audiovisual Carioca 2026 prevê um investimento histórico de R$ 143 milhões (cerca de €24 milhões), distribuídos entre longas-metragens, séries, documentários, videojogos, internacionalização e distribuição.
No encerramento, Leonardo Edde abordou os principais desafios estruturais do audiovisual brasileiro contemporâneo. Entre eles, apontou a necessidade de recuperar o market share do cinema nacional, ampliar a competitividade internacional da indústria, modernizar infraestruturas técnicas e construir uma estratégia coordenada de exportação cultural brasileira. A inteligência artificial e a modernização regulatória surgiram também como temas centrais para a sustentabilidade futura do sector. O discurso consolidou a defesa de um audiovisual entendido não apenas como entretenimento, mas como política pública de desenvolvimento económico, projeção internacional e afirmação cultural brasileira.

