Lira do real: Prolífica cineasta analisa potências femininas na realização

(Fotos: Divulgação)

Em paralelo à carreira do seu “Prazer em Conhecer” – documentário sobre a prevenção ao HIV no meio às práticas sexuais de quem é vítima de homo e transfobia, em cartaz no Mix Brasil -, Susanna Lira, uma das mais prolíficas realizadoras da América Latina, vai passar pela sabatina do seminário Na Real_Virtual esta noite, às 19h (22h em Portugal).

Vai fazer da força da representação feminina – por trás e na frente das câmaras – um dos focos da conversa. Debruçada no roteiro de uma longa-metragem de ficção sobre a ex-primeira-dama Maria Thereza Goulart, a realizadora é uma fábrica viva de produção no cinema brasileiro, sobretudo na seara documental.

Laureada com o troféu Redentor de Melhor Direção do Festival do Rio 2018 por “Torre das Donzelas”, ela é um sinónimo raro de “quantidade = qualidade” nas telas do Brasil, com filmes como “Damas do Samba” (2013) e de “Mussum: Um Filme do Cacildis” (2018).

Para saber como acompanhar Susanna esta noite, visitem o URL da produtora Imaginário Digital, no https://imaginariodigital.org.br/real-virtual/parte-2, a fim de entender mais sobre o simpósio organizado pelos curadores Bebeto Abrantes (realizador e roteirista de farta produção) e Carlos Alberto Mattos (um dos decanos da crítica cinematográfica brasileira) com foco na pluralidade da nossa não ficção. Susanna adiantou ao C7nema parte das suas reflexões para o debate desta quarta.

Qual é a dimensão política do seu cinema, com e para além dessa afirmação do feminino? Que outros temas você acredita ter abordado?

Acho que a maior dimensão do que eu faço está na forma de como me posiciono politicamente em relação às questões de género e, fundamentalmente, às questões de memória. Tudo que eu faço é sempre na tentativa de encapsular fragmentos do tempo em cada filme, e, de certa maneira, é uma forma de preservar histórias para que não sejam esquecidas. Acho que em todos os meus filmes abordo a resistência e a esperança que pode ser feminina, política ou simplesmente uma forma de sobreviver ao tempo e a invisibilidade.

Que novos projetos te aguardam e de que maneira a ficção serve de norte nessa trajetória tão marcada pelo olhar documental?

Eu sou uma documentarista que também faz ficção, e essa relação com o real só potencializa o que levo para o ficcional. Nos últimos anos, tive contato com mundos diversos e pessoas plurais. O documentário deu-me um repertório do qual me orgulho muito e faz-me esquecer como é difícil ser documentarista no Brasil. Tenho sido convidada para dirigir filmes de ficção baseados em histórias reais e isso é um privilégio enorme, pois consigo transitar entre o real e o ficcional com uma fluência que me entusiasma.

Qual é o cinema que mais e melhor te formou como espectadora e como artista? Que realizadoras e realizadores hoje mais te servem se farol?

O meu interesse pelo cinema surgiu aos 17 anos, numa faculdade de Jornalismo onde assisti a “Cabra Marcado para Morrer”. Desde então, tudo que Eduardo Coutinho fez na vida sempre me inspirou e me interessou. O cinema documental e o cinema político sempre esteve no centro da minha atenção. Devorei toda a obra dos irmãos Maysles, da Agnès Varda, da Chantal Akerman, da Helena Solberg, do João Moreira Salles e de outros tantos. Ultimamente, tenho revisto a obra do Ken Loach que para mim faz o melhor cinema político do mundo. Ele é meu farol no momento. Sonhei a semana passada que estava trocando altas ideias com ele.

Quantos prêmios ganhou ao todo, com todos os filmes, nos últimos anos? E quantos o “Torre das Donzelas” – a sua longa mais aclamada mundialmente e motor do debate desta noite – ganhou? Já foram quantos filmes e quantas séries como realizadora? Qual é o próximo filme a ser exibido e onde?

De acordo com a IMDB, tenho 42 trabalhos, entre longas, curtas e séries, mas, na realidade, já contabilizei 50 projetos em que assinei a direção até novembro de 2020. Já os prémios, nunca contei, porque, apesar de significarem um reconhecimento importante, no dia seguinte tenho que começar do zero de novo.

Eu valorizo essa trajetória que teve reconhecimentos importantes, mas não me apego a isso, só agradeço pelo meu trabalho ser cada vez mais compreendido. “Torre das Donzelas” ganhou sete prémios importantes e várias menções especiais, mas o seu maior mérito é estar, desde 2018, passando por dezenas de festivais, mostras e exibições especiais de todo tipo que você possa imaginar. É um filme com uma cauda longa e que me surpreende todos os dias, seja por um convite para festival ou por um e-mail de alguém que assistiu e decidiu me escrever comentando o filme.

Sobre o agora, acabei de lançar um filme no Festival Mix Brasil, chamado “Prazer Em Conhecer”, sobre prevenção ao HIV, e dirigi uma série para a Globoplay chamada “Por Um Respiro” sobre médicos e pacientes na “front” da covid-19, que deve estrear ainda esse ano. No mais, aproveitei a pandemia para estudar Filosofia e Psicanálise, e já estou utilizando esses novos conhecimentos em projetos que vou trabalhar em 2021 e que tenho gestado há meses com muito carinho: a biografia (em ficção) de Maria Thereza Goulart (primeira-dama do Brasil no governo Jango) e o documentário sobre a escritora e roteirista Fernanda Young.

No frigir das inquietações documentais do país, Abrantes e Mattos têm agendadas ainda conversas com Adirley Queirós, Claudia Priscilla, Evaldo Mocarzel, Joel Zito Araújo, Kiko Goifman, Roberto Berliner, Sandra Werneck e Walter Salles. Essas conversas acontecem sempre às 19h, às segundas, quartas e sextas. Valem a atenção, o estudo e o aplauso.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/umqo

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