Calcado numa leitura jocosa do marxismo, Os Emergentes estreia no Brasil nesta quinta-feira com a promessa de devolver às trincheiras da comédia o ímpeto bélico da sátira social. É uma trama pensada a partir das fracturas económicas do país nos dias de hoje. Produzido e protagonizado por Jeniffer Setti, o filme, realizado pelo cineasta sino-brasileiro Hsu Chien Hsin, parte de uma inversão de papéis: um casal pertencente à antiga elite carioca perde toda a fortuna e acaba a trabalhar como mordomo e governanta dos seus antigos empregados, entretanto enriquecidos graças a um negócio de quentinhas. A partir desta premissa, a narrativa cruza humor, romance e crítica social, sem perder de vista o objetivo de chegar ao grande público.
Mais do que uma simples sucessão de equívocos, Os Emergentes inscreve-se naquilo que parte da crítica brasileira passou a designar por “neochanchada”: uma atualização da velha tradição das chanchadas que substitui o universo carnavalesco dos anos 1940 e 1950 pelas ansiedades do consumo, da mobilidade social e das novas configurações da classe média. Tal como sucedeu em sucessos comerciais como Se Eu Fosse Você (2006), De Pernas pro Ar (2010), Até que a Sorte nos Separe (2012) ou, mais recentemente, Os Farofeiros 2, o riso nasce da observação de conflitos económicos e familiares, funcionando como uma lente para interpretar um país em permanente transformação.
Responsável por viabilizar a longa-metragem, Jeniffer Setti conhece bem esse esforço de fazer chegar uma comédia ao ecrã. Em conversa com o C7nema, admite que produzir Cinema independente no Brasil continua a ser um exercício de persistência. Sem recorrer a financiamento estatal, o projeto foi concretizado exclusivamente através de investimento privado e de uma extensa rede de colaboradores. “Produzir sem incentivo do governo é realmente muito difícil”, reconhece, explicando que, apesar dos inúmeros obstáculos, encontrou parceiros que acreditaram na proposta desde o início. Na sua perspetiva, o filme só existe porque atores e equipa técnica aceitaram unir esforços para o concretizar.
Essa dimensão coletiva prolongou-se na composição do elenco. Sem orçamento compatível com um conjunto tão expressivo de intérpretes, Jeniffer recorreu às amizades construídas ao longo da carreira, reunindo nomes como Alexandra Richter, Nelson Freitas, Paulinho Serra, Mónica Carvalho, Lucas Penteado, Nando Cunha, Laura Proença, Catarina Dantas e Junior Vieira. “Contei com amigos de verdade”, afirma, convencida de que essa cumplicidade acabou por fortalecer o resultado artístico.
Embora assuma plenamente a vocação popular da obra, Jeniffer sublinha que o filme procura discutir questões profundamente brasileiras. Entre elas estão a invisibilidade dos trabalhadores domésticos, as relações de poder entre patrões e empregados, a proliferação das apostas ilegais e das fraudes digitais, bem como a vulnerabilidade de quem possui menor acesso à educação formal. Para a produtora, muitas das armadilhas enfrentadas pelas personagens decorrem precisamente dessa exclusão social. “Não é apenas uma comédia rasgada”, resume. “Queremos que o público saia da sala com alguma coisa boa no coração.”
A história acompanha Beatriz e Henrique, antigos aristocratas que, depois de perderem tudo, aceitam trabalhar para Letícia e Inácio, um casal outrora humilde que ascendeu socialmente graças ao êxito do seu negócio gastronómico. Filmado sobretudo numa mansão da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, o filme transforma essa inversão hierárquica numa sucessão de confrontos cómicos em que preconceitos, ressentimentos e afetos acabam por emergir de forma inesperada.
A direção de fotografia de Silvia Gangemi acompanha esse permanente choque entre mundos distintos, procurando equilibrar o registo farsesco com momentos de maior intimidade.

Os Emergentes representa também a consolidação da carreira de Jeniffer Setti enquanto produtora. Depois de Os Blogueiros (2022), lançado em televisão e plataformas digitais, prepara já um terceiro projeto, Amor em Alta, no qual volta a acumular funções de atriz e produtora. Um percurso que acompanha a sua própria trajetória pessoal, iniciada nos subúrbios do Rio de Janeiro e construída gradualmente entre o teatro e o cinema.
Num momento em que o cinema brasileiro procura recuperar público nas salas, Os Emergentes aposta numa fórmula raramente desligada da história do audiovisual do país: fazer rir enquanto observa as contradições sociais. Jennifer Setti acredita que continua a haver espaço para esse cinema popular, desde que o humor seja acompanhado por personagens capazes de reflectir as inquietações do presente. É nessa conjugação entre entretenimento e comentário social que o filme procura encontrar a sua identidade.

