Já lá vão 56 anos desde que Želimir Žilnik conquistou a Berlinale com Early Works, e a trajectória que liga esse gesto inaugural a Eighty Plus revela um percurso de inquietação contínua, deliberadamente afastado das narrativas oficiais. Trata-se de uma recusa persistente em aceitar que o Cinema deva servir de montra ao Estado, ao mercado ou a qualquer utopia confortável.
Na obra de 1969, o realizador sérvio desmonta o entusiasmo revolucionário juvenil, expondo a distância brutal entre a ideologia e a vida real. É, sim, um filme sobre juventude, mas já profundamente marcado pelos fracassos coletivos e pelas promessas que não se cumprem. A partir desse momento, Žilnik desenvolve uma sensibilidade singular para detetar os pontos em que a História falsifica a realidade, afirmando-se como um crítico sistémico que coloca a experiência humana frente à máquina estatal. Ao longo da sua filmografia, revela como as burocracias esmagam histórias pessoais, seja no comunismo, na democracia liberal ou no ressurgimento dos nacionalismos — estes últimos particularmente violentos para quem vive nas margens. Muitos dos seus filmes dos anos 1990 enfrentam esse fenómeno, enquanto, nos anos 2000, o cineasta se debruça sobre a crise pós-socialista e o capitalismo selvagem que varreu os Balcãs.
É com este lastro que Eighty Plus surge como peça tardia de uma espiral iniciada no final dos anos 1960. Se Early Works mostrava o colapso dos ideais juvenis, Eighty Plus acompanha o regresso de um homem envelhecido para enfrentar o rasto acumulado dessas desilusões. A juventude do primeiro prometia mudança; a velhice do segundo confronta-se com as ruínas dessa promessa. O círculo fecha-se e pouco — para além das intenções — parece ter realmente mudado.
A personagem principal de Eighty Plus, um octogenário que regressa para tentar recuperar a casa de família retirada pelo Estado, surge quase como um fantasma a atravessar meio século de história balcânica. A restituição do imóvel é apenas o pretexto para revelar que nada foi verdadeiramente resolvido: nem as feridas do socialismo, nem as traições do capitalismo, nem a fragmentação nacional e os nacionalismos que se impuseram.
Žilnik, que revisita nostalgicamente o seu passado ligado ao jazz, regressa à mesma pergunta lançada em 1969 — “o que fizemos com as nossas ideias?” — agora inscrita no rosto de alguém que viveu todas as respostas possíveis. Trata-se de uma personagem que regressa ao país de onde partiu, décadas antes, para escapar ao comunismo, deixando para trás a mulher, a filha, uma casa e terras — estas últimas outrora pertencentes a um conde — entretanto requisitadas pelo Estado para uso comunitário.
A promessa de um regresso pacífico rapidamente se desfaz. A devolução do imóvel e das terras transforma-se num poço burocrático que, no fim, nunca se concretiza plenamente. A velhice, longe de ser um desfecho silencioso, torna-se palco: é a personagem octogenária que empurra a narrativa para a frente. Aquilo que deveria ser um gesto de reconciliação transforma-se numa guerra interior, em que voltar ao país de origem implica enfrentar burocracias, desconfortos e feridas que nunca cicatrizaram.
No seu estilo habitual, Žilnik filma tudo isto como um teatro improvisado, onde, mais uma vez, a memória confronta o sistema — e o sistema responde com frieza. O seu olhar documental mantém-se firme e despojado de adornos, feito de planos directos, pessoas comuns e fricção constante com o real, num diálogo permanente entre atores e não-atores.
A montagem segue o mesmo impulso, valorizando diálogos frequentemente improvisados, que obrigam o espectador a observar mais do que a seguir uma narrativa convencional. O filme assume-se, assim, como uma conversa ininterrupta entre a experiência do real e a sua encenação.
É Žilnik a ser Žilnik: um Cinema que prefere o risco à harmonia e que entende a imperfeição como parte essencial do teatro da vida.




















