Bandeira de Retalhos: estandarte da inclusão social

(Fotos: Divulgação)

Responsável pelo regresso do músico Sérgio Ricardo à realização de longas-metragens, ‘Bandeira de Retalhos’ entra em cartaz no YouTube a partir desta terça-feira, recriando o Vidigal dos anos 1970

Monumento da música brasileiro, compositor de pérolas como “Zelão” e “Beto Bom de Bola”, Sérgio Ricardo, hoje com 87 anos, recupera de uma hospitalização, comemora, com a sua habitual discrição de samurai da canção, o lançamento online, de âmbito mundial, de uma longa-metragem que filmou a partir de conflitos sociais reais do Rio de Janeiro.

Disponível no YouTube a partir das 20h desta terça-feira (0h00 de quarta-feira, em Portugal), “Bandeira de Retalhos” foi salpicado de elogios  na sua passagem pela Mostra de Tiradentes, em Minas Gerais, há dois anos, e, desde então, esperou por uma vaga no circuito de exibição. A sua projeção marcou o regresso de SR à direção: na década de 1970, ele pilotou o filme de culto “A Noite do Espantalho”, em paralelo à sua trajetória compondo e tocando violão. Cartografia dos afetos do dia a dia das favelas do Rio de Janeiro, este drama de tons musicais reconstitui situações dos anos 1970 a partir de uma experiência de imersão sociológica com o mesmo nome feita por Sérgio nos palcos, com a trupe Nós do Morro.

Em cena, vemos um desempenho devastador da atriz Kizi Vaz e uma participação lírica do ator Antonio Pitanga, um dos pilares do Cinema Novo.

A síntese do meu cinema sempre foi a exploração da sociedade pelo Capitalismo. Sou o que se chama de ‘uma pessoa de antigamente’, um artista formado pela Nouvelle Vague, o movimento moderno dos franceses que libertou o cinema da dependência da técnica e da questão económica, em nome da linguagem. E ainda sigo o que aprendi nos filmes daquela turma de franceses“, disse Ricardo, à época da exibição em Tiradentes.

No início dos anos 1960, em paralelo a experiências cinematográficas como “Esse Mundo é Meu” (1964) e “O Menino da Calça Branca” (1962), que dirigiu, Sérgio Ricardo participou do Movimento de Música de Resistência, promovido pelo Centro Popular de Cultura, da União Nacional dos Estudantes (UNE). Nesse período, lançou os LPs “Não Gosto Mais de Mim” e “A Bossa Romântica de Sérgio Ricardo”. “Papai está se recuperando hoje, vivendo num contexto social de mundo que tem muito a ver com a realidade de luta que ‘Bandeira’ retrata, o que torna ainda mais simbólico vermos o filme no YouTube, ao alcance gratuito todos“, disse a produtora Marina Lufti, filha do músico e diretor. “É grande a dificuldade de se colocar em circuito uma pequena produção sem muito orçamento, como foi esse projeto. Já era, bem antes da pandemia de coronavírus. Mas essa chance de utilizar a internet é importante para fazer o trabalho dele chegar às pessoas“.

Exercício poético raro entre os filmes nacionais centrados no universo das favelas, “Bandeira de Retalhos” revisita, em tons fabulares, o Vidigal da década de 1970, recriado com um lirismo digno das bandeirolas do artista plástico Alfredo Volpi (1896-1988). Apesar da caracterização de época, a produção mostra fuzis, .12s e pistolas modernas, empunhadas por uma Polícia Militar com sanha do BOPE (Batalhão de Operações Policiais Especiais). A estranheza aparente que estas armas causam cai por terra quando percebemos estar diante de uma quase fábula sobre resistência. Retrata-se um espírito de picardia que alimenta a conexão de lealdade ente as personagens, inspiradas em factos reais. A génese do projeto vem da situação em que os moradores do Morro do Vidigal foram ameaçados pelo Estado de saírem das suas casas por um projeto de remoção. Imagens documentais – editadas com perfeita sintonia com a encenação ficcional por Victor Magrath – sublinham a veracidade do que se deu fora dos ecrãs, quatro décadas atrás. O cineasta esteve lá na época e viveu toda a tensão.

Esse roteiro cinematográfico já estava escrito pelo Sérgio nos anos 1960, só que ele não tinha conseguido filmar. Ele acabou fazendo, em parceria com o Nós do Morro, uma peça teatral baseada no roteiro cinematográfico. O que veio primeiro foi o roteiro. Depois do sucesso da peça, a unidade que temos no Vidigal foi muito grande. Logo, houve um regime de mutirão1 desde a pré-produção do filme. O nosso ‘making of’ tem imagem disso, com o produtor e o diretor Cavi Borges carregando carinho de pedreiro para ajudar. Com a protagonista batendo barro“, diz Daniel Paes, o diretor de fotografia da longa-metragem. “Trabalhar com o Sérgio foi muito bom. Ele não tem grandes preciosismos. Sempre está em cena aberta dando para a gente liberdade para criar juntos. Tivemos vários problemas nas filmagens, pois fazer filme sem dinheiro é muito mais complexo. Mas conseguimos reverter isso. É um filme possível por ser de mutirão, um filme feito na coletividade apesar de todas as dificuldades. É isso que a tradição do cinema brasileiro mostra para gente”.

Na trama filmada por Sérgio, Tiana (Kizi Vaz) é a protagonista. Ela é a valquíria do Vidigal: a guerreira que meterá coração, inteligência e alma na luta pela permanência do seu lar, mesmo dividida por uma disputa amorosa. Ela é a cereja vermelha de um bolo de sociologia e poema em forma de filme. Como brinde, ganhamos uma emotiva atuação de Antonio Pitanga, vivendo uma espécie de Tirésia da favela, como um cego que já viveu muito, mas ainda tem o que aprender sobre a arte de lutar. O elenco traz ainda Luciana Bezerra, Babu Santana, Guti Fraga e Osmar Prado.

O Sérgio Ricardo é um mestre. A gente brinca que ele é um mestre das artes”, disse Paes. “Todo o mundo do Vidigal ligado às artes o respeita e possui um carinho muito grande por ele. Só ele mesmo para conseguir tanta gente em volta de uma ideia coletiva e popular. Tem muito fundamento o que ele fala. Tem muito fundamento em tudo aquele em que ele acredita, pois é uma vida doada para a arte e para o povo brasileiro. Esse filme é uma celebração disso“.

1 Mutirão é o nome dado no Brasil a mobilizações coletivas com um fim, baseando-se na ajuda mútua prestada gratuitamente

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