As ansiedades perante um apocalipse povoam, de forma diferente, dois dos espécimes canadianos presentes no Festival de Cannes, e ambos na Quinzena dos Cineastas: “Peek Everything” e “Death does not exist”.
Se no segundo a urgência climática e luta de classes leva um grupo de ativistas a um ataque armado, no caso de “Amour Apocalypse” há terremotos e outros desastres naturais que apesar de atemorizarem o mundo, aproximam Adam (Patrick Hivon) e Tina (Piper Perabo), que vivem em cidades diferentes do Canadá, mas que encontram na linha de atendimento de um call center um ponto de conexão imediato. Esse encontro não é feito sem tropelias, já que Adam telefonou para o suporte emocional que ele pensa que uma empresa de luminária oferece. Tina atende a chamada e dá apoio… mas técnico.
Nos seus 50 anos, Adam é uma figura muito sensível e com uma depressão a ameaçar. As suas companhias são o pai, o durão Eugène (Gilles Renaud) que implica como quase tudo que ele diz e faz. No seu emprego num canil, ele é seduzido (e manipulado) por uma empregada mais jovem, Romy (Élizabeth Mageren, que faz o que quer e se recusa a executar ordens. Um sismo enquanto Adam e Tina conversam na linha de apoio faz o primeiro meter-se no carro e viajar para ver se está tudo bem com a mulher, conhecendo-a então pessoalmente, bem como o seu marido e filhos.Sob uma toada constante de tragicomédia, onde os desastres naturais fazem Adam e Tina correr para algumas resoluções da sua vida, “Amour Apocalypse” serve de “placebo” para dois casais de meia idade encararem a vida de frente e tentarem ser felizes no tempo que lhes resta.
Claro está que a realizadora Anne Émond facilita as coisas através da construção de um compreensivo marido para Tina, enquanto Romy e Eugéne vão-se também adaptado para que o casal central do filme chegue a uma resolução que agrade a eles e ao espectador. Nesse aspeto, o filme tem sempre a toada de crowd pleaser, repleto de romantismo, mas nunca perde no processo a sua ambição de descontruir (estudar) as personagens de Adam e Tina, representativa de todos aqueles que precisam de um empurrão e sentido de urgência para tomar decisões relativas à sua felicidade. Pena é que esse empurrão seja o apocalipse.



















