Já passaram vinte anos desde Douches Froides (2005), filme em que Antony Cordier explorava as tensões de classe através da história de um casal adolescente abalado pela chegada de um outro jovem mais abastado. Essa reflexão sobre desigualdade e desejo social encontra agora uma continuação natural em Classe moyenne (Acabou-se a Festa), o seu mais recente projeto — uma espécie de Parasite à francesa — que observa, com ironia, o microcosmo de uma família de classe média em confronto com os caseiros da sua mansão, após sete anos de convivência.

De um lado da barricada está o casal Philippe Trousselard (Laurent Lafitte), um advogado bem-sucedido, e Laurence de Préville (Élodie Bouchez), uma atriz em plena crise de notoriedade, que vivem com a filha Garance (Noée Abita), jovem aspirante a seguir os passos da mãe. Do outro, Tony Azizi (Ramzy Bedia) e Nadine Azizi (Laure Calamy) espelham o reverso desse conforto: empregados domésticos que, enquanto recebem “por fora” o salário dos patrões, dependem simultaneamente da assistência social para sobreviver. No anexo da propriedade, partilham o espaço — e as tensões de classe — com a filha Marylou (Mahia Zrouki), testemunha (por enquanto) silenciosa de um equilíbrio prestes a ruir.

Entre condescendências, gestos de falsa generosidade e a falta de noção por parte dos patrões, o frágil equilíbrio entre as duas famílias desaba quando Tony, sob o efeito do álcool e da frustração acumulada, desencadeia um conflito que rapidamente se transforma numa guerra cínica. O caso ameaça chegar aos tribunais, depois do casal proletário exigir uma compensação financeira aos antigos empregadores — algo que Philippe delega à resolução de Mehdi (Sami Outalbali), namorado de Garance e jovem advogado de origens modestas, que tenta intermediar o conflito — um verdadeiro “capacete azul” da conciliação — enquanto alimenta a esperança de garantir um estágio na firma do “sogro”.

A luta de classes — ou, mais precisamente, a relação entre elas — é aqui uma ferramenta dramatúrgica. No entanto, o alvo fundamental da crítica do filme não são os ricos contra os pobres, mas o próprio capitalismo enquanto forma de pensamento ideológico, em que o dinheiro é o sol que guia todos. Não há pretensões por aqui de equilíbrio social. Os ricos querem continuar ricos e os pobres querem ficar ricos. Por isso mesmo, ambas as fações são apresentadas com detalhes que não escapam aos clichés: Philippe, por exemplo, só fala de dinheiro e dos clientes que ganha ou perde, recorrendo frequentemente a frases em latim como demonstração de snobismo e superioridade cultural. Também cozinha, e acha horripilante imaginar comer algo comprado no Lidl — ao contrário dos Azizi, que respondem à enorme piscina dos patrões com uma de borracha, junto ao anexo onde vivem, e onde relaxam a beber champanhe.

A guerra entre os dois grupos intensifica-se. Em vez da comédia ligeira e paródica — tão cara ao cinema francês, que lança farpas a diferentes fações em conflito — ou de uma via mais subtil e contida, de crítica mais precisa, Cordier enegrece o tom. Pequenas vinganças sucedem-se e ganham volume a cada sketch e gag, num impulso punitivo que evoca The War of the Roses (na lógica da rutura conjugal) ou Triangle of Sadness (quando o poder se inverte entre classes). No meio, o “centrão”, que procura algum tipo de razoabilidade entre as fações, apanha por tabela de todos os lados, revelando como a polarização e os extremismos acabam por transformar quem está entre eles em dano colateral.

Classe moyenne tem uma encenação vistosa — sol da Côte d’Azur, interiores dourados, corpos em tensão —, mas esse brilho visual acaba por ofuscar a acuidade da observação social: a mise-en-scène deslumbra onde deveria ferir, polindo as arestas de uma sátira que pedia uma lâmina mais afiada para escapar a uma mera forma de comédia negra escapista.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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