Os papéis no seio familiar e numa produção cinematográfica estão no centro do novo drama do cineasta norueguês Joachim Trier (Louder Than Bombs, Thelma), o qual volta a convocar Renate Reinsve (A Pior Pessoa do Mundo) para o protagonismo de um filme onde é Stellan Skarsgard que principalmente brilha na sua frustração de não conseguir estabelecer uma relação decente com a filha, nem em levar aos cinemas um novo filme, depois de 15 anos sem filmar.

O centro territorial deste drama é uma casa de família que reúne todas as histórias, boas e más, entre os intervenientes, e que será também o espaço para o filme que Gustav (Skarsgard) quer rodar o seu projeto, de cariz biográfico. Para compreender o afastamento entre pai e filha, que é uma bem-sucedida atriz de teatro e televisão, há que entender o velho dilema de carreira vs vida familiar. Renate Reinsve queixa-se que o pai nunca esteve presente, regressando agora (inoportunamente) para o funeral da sua mãe e ex-esposa, Sissel, estando entre eles um fosso escavado pelas palavras nunca ditas entre os dois. Já a sua irmã, Agnes (Inga Ibsdotter Lilleaas  a surpreender), que tem um filho, não é tão emocionalmente frágil perante a questão como a irmã, representando mesmo o ponto de estabilidade emocional da família, uma espécie de “capacete azul” nas discussões complexas sobre a paternidade e ausência.

Trier, experiente na demonstração de afetos e desafetos em personagens com tantas lutas externas para travar, como demónios internos para os consumir, coloca ainda em cena uma espécie de proposta de paz na forma da participação de Nina num filme que Gustav escreveu para ela. A recusa da filha, que acusa o pai de ser impossível de comunicar, faz chegar a cena uma nova personagem, a famosa Rachel Kemp (Elle Fanning), que também procura um pouco mais de verdade e liberdade no seu mundo criteriosamente montado por agentes e publicistas. Será ela que vai assumir o papel destinado a Nina no filme de Gustav, potenciando a possibilidade de o projeto avançar, mas gerando novas conturbações na família.

Com a chegada de Rachel, Trier também questiona o próprio cinema, não apenas com uma boca aqui e ali à Netflix e ao novo modelo da indústria cinematográfica, mas igualmente através da questão se escolha de atores para papéis que foram escritos para outros não esvazia, ele mesmo, o cinema do seu potencial, e do próprio ato de criação.

Tudo questões que fazem o espectador seguir durante 2 horas com atenção “Sentimental Value, um bom regresso de Trier e uma prova que está num período fértil no que concerne a criação e profundidade multicamadas do que escreve e realiza.

Texto originalmente escrito em maio de 2025

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Jorge Pereira
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