Após rumar à Serra da Estrela para filmar a área do Covão dos Conchos, um “abismo” material que parece sair de um filme de ficção científica, mas que na realidade é uma obra de engenharia construída na década de 50, a cineasta indiana (radicada em Portugal) Kopal Joshy encontrou e lançou a sua objetiva sobre outro abismo, não artificia, ainda que espiritual: um viúvo solitário, Carlos, que vive em desassossego, entregue ao luto e a dor permanente pela ausência da sua esposa Trudi, falecida há um par de anos.
Carlos não ultrapassou a morte da mulher e, na sua casa isolada na Serra, onde a paisagem natural fria e gélida, que rodeia a sua casa envolvida numa frequente escuridão, contrasta com o calor da saudade de um homem por uma mulher com quem partilhou quatro décadas de existência. É na leitura de inúmeras e intemporais cartas de amor de Carlos para a esposa que o filme de Kopal encontra a sua luz, um processo que a indiana transforma num gesto cinematográfico e ele numa terapia de libertação da dor da tragédia.
“Perda” e “Solidão” são elementos chave na existência diária de Carlos, com este a confessar sentir isso também quando Kopal se ausenta uns dias para filmar o outro projeto fílmico. “Mas voltei”, diz ela, acalmando Carlos, que é sempre filmado pela realizadora com grande proximidade, transformando o seu ato de partilha num exercício de intimidade e de coragem pela exposição das suas vulnerabilidades. Já a paisagem serrana é filmada frequentemente em planos de conjunto, como que acentuando a grandiosidade natural perante alguém que recatadamente sofre em silêncio de páginas escritas e impressas, pelo menos até à chegada de Kopal e de um filme que as leva a ler em voz alta.
A cineasta, que além de realizar, trabalhou no som e na fotografia deste “Somos Dois Abismos”, trata o seu objeto fílmico com respeito, ternura e atenção, fugindo do exploratório na exposição da sua dor, escurecendo ou cortando as cenas quando as lágrimas ameaçam. Nisto, Kopal orquestra um bonito e singelo gesto cinematográfico e humano, onde as imagens de arquivo que surgem em cena de Trudi são sempre tratadas como uma homenagem sentida, a ela e ao homem que sofre com a sua ausência.



















