Wilcox: Denis Côté enfrenta a imensidão moral do isolamento e a natureza da solidão

(Fotos: Divulgação)

Indicado ao Urso de Ouro de Berlim em fevereiro, por Ghost Town Anthology, o prolífico cineasta canadiano Denis Côté, de 45 anos, causou uma sensação na recém-encerrada 72ª edição do Festival de Locarno com um ensaio sobre sobrevivência na Natureza que dispensa palavras, mas abraça o risco: Wilcox.

No grande ecrã, Guillaume Tremblay dá vida a um ermitão -com um uniforme militar onde se lê o nome Wilcox – que anda por florestas frias do Canadá surrupiando comida de lojas e casas vazias, usando um autocarro abandonado como lar. É um estudo sobre a poética da solidão, vetorizado por histórias reais de aventureiros que largaram o convívio social para se isolar nas matas. Na entrevista a seguir ao filme, o premiado diretor, famoso por Vic e Flo viram um urso (vencedor do Troféu Alfred Bauer na Berlinale 2013), fala ao C7nema de suas escolhas estéticas e da moral do seu anti-herói.

O quão aventureira foi essa filmagem? Quanto tempo durou a rodagem e quão frio estava?

Filmamos na mesa paisagem onde rodamos Ghost Town Anthology, no Inverno, a 30 minutos de Montreal. Eu já havia me familiarizado com o local e já conhecia as pessoas que poderiam nos ajudar, como os dois idosos com quem Wilcox conversa. O frio… o mau tempo… nada disso importava: o nosso ator tinha que ser o Wilcox e nós tínhamos que estar lá para lidar com as mazelas naturais. Éramos apenas quatro pessoas. Eu não tinha um script, mas tinha uma espécie de plano: nós só precisávamos de licenças para filmar em alguns locais. Encontramos uns seis ou sete locais nos quais existiam autocarros escolares abandonados. O resto foi improviso. Algumas situações foram acidentais, como a cena na qual Wilcox esbarra com um grupo de caçadores, vestidos como ele, ou quando ele se depara com jovens nas motos. Foi uma experiência de seis dias. Não me senti só nesta empreitada porque já havia feito filmes desse tipo antes. Seria fácil acreditar que esse tipo de processo flui melhor sem guião ou sem um objetivo especificado. Mas não é assim. Eu aprendi a confrontar a realidade, seja ela qual for, na mesa de edição. Há pessoas que se preparam em excesso, ou escrevem demais. Eu apenas confio nos meus conceitos mais simples.

De que maneira as histórias reais que são mencionados ao longo da narrativa refletem na construção do seu protagonista? O que esse projeto toma emprestado dos factos reais?

A memória mais antiga que eu guardo desse projeto refere-se a uma série de autocarros escolares abandonados com os quais eu me deparava andando pelo Québec. Pesquisei se havia algum significado histórico por trás desse abandono, mas não encontrei nada. Aí, eu cheguei à ideia de que esses veículos velhos poderiam se tornar abrigos para proteger pessoas andarilhas do frio e da chuva. A partir desse conceito, comecei a pesquisar sobre eremitas que vivem na Natureza, sobre soldados que perdem a cabeça e se afastam da sociedade. Daí criei a figura ambígua de Wilcox, para questionar o facto de que é muito fácil mitificar a decisão dessas pessoas, desses ermitões, e elegê-los heróis. Muitos deles morreram por não estarem devidamente preparados ou por estarem às voltas com problemas mentais. Por isso, Wilcox é um anti-herói, uma espécie de delinquente que é difícil de se amar.

E como nos relacionamos com o seu protagonista?

O melhor que podemos fazer é criar alguma simpatia por ele, nada mais do que isso, porque não o conhecemos. Não levei para o filme nada da biografia das pessoas que têm as suas histórias mencionadas em cartelas no iníco ou no filme do filme. Eles são apenas ecos da jornada de Wilcox. Eu apenas tive uma enorme sorte de encontrar um autocarro da mesma cor daquele que Christopher McCandless, uma das figuras citadas, encontrou no Alasca.

É impossível analisar sua obra, a partir do sucesso de Vic+Flo viram um urso, sem falar em “desejo”, palavra central da sua dramaturgia. Qual é o lugar do desejo em Wilcox?

“Desejo” é um termo engraçado. Tenho a sensação de que a maioria das minhas personagens é teimosa. Eles, na maioria das vezes, acreditam estarem sozinhos na hora de encarar o mundo, criando um sistema mais introspetivo para lidar com o mundo, enfrenta-lo. Eles odeiam regras e farão o possível para preservar o que sobrou da sua liberdade. Eles não são agressivos, aceitam as condições que o cercam, mas buscam alguma insurreição. As minhas personagens dificilmente aceitam o não como resposta. De certa forma, eles são como eu. Nós fazemos filmes sobre nós mesmos até quando não admitimos isso. Filmar é uma egotrip, uma viagem de ego, interna. Quando um filme funciona, isso significa que ele foi além de nós, além do seu criador. Mas isso nem sempre acontece.

O quanto a Natureza modifica Wilcox?

Ele não se transforma com a Natureza; ele é a Natureza, e é isso o que ele quer ser. Ele não quer que a gente o conheça. Ele não quer ser visto. Por isso, eu levei para a narrativa várias obstruções visuais de foco e criei uma cadência de montagem que parece um soluço. Wilcox não é uma pessoa que “faz sentido”. Só ele sabe o que é preciso para sobreviver.

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