Numa era em que tanto se fala de criação de conteúdos algorítmicos, o novo projeto de Ethan Coen parece exatamente isso: um simulacro com corpo de filme dos irmãos Coen, mas sem o seu espírito e profundidade.
À superfície, nesta segunda incursão de uma trilogia iniciada em 2023 com Drive-Away Dolls (2023), estão lá os ingredientes reconhecíveis — personagens excêntricas, diálogos espirituosos, violência convertida em gag, coincidências caricatas, sexo com fartura — mas tudo soa a produto programado, previsível, repetitivo.
O que poderia ser um mergulho na perversidade americana que os Coen tão bem souberam fazer no passado (Blood Simple,1984; Fargo, 1996); The Big Lebowski, 1998; No Country for Old Men, 2007), e que inspirou mesmo tantos cineastas (de Edgar Wright a Quentin Tarantino), não passa aqui de uma sequência de episódios e tropelias que deslizam pelo ecrã sem deixar memória, nem sequer como forma de escapismo ligeiro — embora o selo Coen neo-noir sirva de isco.
Honey O’Donahue (Margaret Qualley), detetive privada, investiga um acidente suspeito que a leva até ao Four-Way Temple, igreja liderada pelo reverendo Drew Devlin (Chris Evans). Com a ajuda de MG Falcone (Aubrey Plaza), com quem entretanto inicia uma relação, Honey vai desvendando uma teia de corrupção — que a certo momento ganha contornos pessoais quando a sua sobrinha adolescente, Corinne (Talia Ryder), desaparece misteriosamente após o trabalho.
Ainda que observemos ecos nítidos do universo noir, do exploitation e do espírito grindhouse, tudo com sensibilidade queer, Ethan Coen usa-os mais como ornamento estilístico do que como verdadeira matéria dramática. As cenas de sexo, mecânicas, evocam a lógica provocatória do exploitation dos anos 1970, onde a exibição softcore valia mais do que a intimidade. A violência surge grotesca e burlesca — um corpo esmagado por um carro, olhos que ainda refletem um assassino, tiros disparados de olhos fechados —, transformando o gore em gag, como nos velhos double features grindhouse.
Também as figuras centrais parecem saídas desses universos: a detetive lésbica irreverente, o reverendo corrupto que mistura religião e bondage, o polícia inepto que desastradamente (e repetidamente) lança piropos à detetive. Tudo funciona como arquétipo esticado até à caricatura. Tudo funciona de forma precária, como um holograma sem matéria palpável.
A paleta saturada e os enquadramentos vistosos reforçam essa colagem espiritual, enquanto o submundo conspirativo do templo religioso — usado como fachada para sexo e drogas — ecoa os tabus sociais que o exploitation tanto adorava explorar de forma sensacionalista.
No meio deste objeto vistoso, com belos planos, e uma escolha de locações que funcionam também como personagens, infelizmente encontramos apenas um conjunto de fragmentos frágeis e inacabados. E a sátira, que normalmente nos Coen provoca incêndios, aqui é apenas um tição em agonia. A crítica a uma igreja que serve de fachada para abusos e tráfico limita-se à máscara, tal qual ao seu pastor (Chris Evans), um verdadeiro boneco cartoonesco. Já a detetive lésbica que conduz a trama, interpretada com algum savoir faire por Margaret Qualley, não consegue romper a cela estéril da criação superficial da sua figura.
Honey Don’t! parece assim ser gerado por um algoritmo treinado com os “greatest hits” do Coen, mas que se revela incapaz de reinterpretar, remontar ou acrescentar. Ou seja, nem como exercício de DJ, com os melhores temas, numa nova remistura, o set consegue satisfazer.
Sexo, violência e comicidade (nisso) são o chão firme debaixo dos pés do guião escrito por Ethan Coen e Tricia Cooke. Mas o soalho está gasto e nunca sustenta um filme que que vá além do verniz.



















