Sedento por criar o seu próprio 007 – não um espião, mas, sim, um signo de heroísmo associado à virilidade, tão popular quanto James Bond é – Steven Spielberg, que saiu consagrado de “Close Encounters of the Third Kind” (1977), foi olhar para o passado do cinema, atrás de uma inspiração singular. Em vez de repensar grandes filmes, ele, George Lucas e Lawrence Kasdan optaram por rever obras antigas, daquelas filmadas em película, que eram exibidos em circuito, como “Jungle Jim“, “Tarzan” e, sobretudo, o esquecido “Hopalong Cassidy“.

Juntando um pouco de um com algo do outro, nasceu Indiana Jones, que reinou soberano nas bilheteiras dos anos 1980 quando a noção de “símbolo sexual” não era um conceito proscrito e Harrison Ford podia se associar a ele. Com o tempo, a personagem distanciou-se do seu DNA, colado às múltiplas habilidades cénicas e ao carisma de Harrison e transformando-se, ele mesmo, um símbolo de heroísmo, capaz de rivalizar com o próprio Bond, que o inspirou. Mesmo com grandes hiatos, entre um filme e outro, o herói arqueólogo não perdeu o seu elã com a plateia, pois o seu intérprete, hoje aos 80 anos, ainda sabe esculpir as suas fragilidades e as suas destrezas em igual medida. Por isso, e por muitas outras proficiências técnicas, o regresso de Indy, em 2023, é tão precioso.

Assim como se viu em “Raiders of the Lost Ark” (1981) e em “The Last Cruzade” de 1989, os vilões vistos em “The Dial of Destiny” são nazis. E dos mais cruéis. Um cientista formado pelo III Reich, Dr. Voller, muito bem interpretado por Mads Mikkelsen (Melhor Ator em Cannes por “The Hunt“), é a encarnação do Mal dessa milionária aventura feita numa parceria da Disney com a Paramount. Voller segue sempre acompanhado de um capanga cruel, Klaber, vivido por Boyd Holbrook.

Inconformado com certas decisões de Hitler, Voller quer adquirir um artefato – uma espécie de bússola e de ábaco – desenhado por Arquimedes, que pode, supostamente, fazer quem o utiliza voltar no tempo, encontrando uma fissura no cosmos. A peça daria a ele meios de assegurar a vitória ao Eixo, mas Indiana Jones não quer que um instrumento tão potente caia nas mãos erradas. O problema: ele acaba de ser largado pela mulher, Marion (Karen Allen), e é um recém-reformado.

Mesmo em condições insalubres, Indiana Jones é arrastado atrás dessa peça pela sua afilhada, uma contrabandista (ou quase isso) vivida por Phoebe Waller-Bridge (da série “Fleabag“). A sua personagem esbanja bom humor durante todo o filme, mas o pique de tensão da narrativa jamais cai, pelo contrário.

O que mais surpreende é a forma sofisticada como Mangold emprega a linguagem audiovisual, sobretudo através de elipses criativas. Uma sofisticadíssima engenharia de som, somada ao colorido rascante da fotografia de Phadon Papamicharl amplia o senso de espetáculo da longa-metragem.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/sn2p
Pontuação Geral
Rodrigo Fonesa
Jorge Pereira
indiana-jones-and-the-dial-of-destiny-exuberancia-de-um-heroi-que-se-renovaMesmo com grandes hiatos, entre um filme e outro, o herói arqueólogo não perdeu o seu elã com a plateia