Representante oficial do Chile na disputa por uma vaga na corrida pelo Oscar de Melhor Filme Internacional de 2025, “El Lugar De La Outra” carrega o selo da Netflix na competição pela Concha de Ouro, apoiada no prestígio europeu adquirido pela realizadora, Maite Alberdi. A sua fama foi feita na zona fronteiriça entre o documentário e o ensaio poético, vide “El Agente Topo” (2020) e “La Memoria Infinita” (2023). Num traço dessa marca narrativa pregressa, um istmo histórico une realidade e invenção no mergulho que a cineasta dá nas águas da ficção, impulsionada pela literatura.
A partir do livro “Las Homicidas”, de Alia Trabucco Zerán, ela revisita um escândalo das páginas policiais do seu país: um crime passional cometido pela escritora María Carolina Geel (1913-1996), em 1955. Naquele ano, a autora de “El mundo dormido de Yenia” (1946) foi presa por matar o amante com cinco tiros. Esse caso é recontado no cinema sob a ótica da sororidade, envolvendo um exercício de projeção especular ligado ao sofrimento feminino numa sociedade opressora.
A protagonista não é Geel (vivida por Francisca Levin) mas, sim, uma secretária de tribunal, Mercedes (Elisa Zulueta, em delicada composição), escalada pela equipa judicial para fazer uma investigação do cotidiano da ré. Sempre com um cigarro na mão, ela leva uma rotina sufocante ao lado de um marido fotógrafo que parece ignorar as suas angústias. Os seus dois filhos adolescentes fazem o mesmo. No trabalho, o sexismo que a cerca é constante, a ponto dela só ganhar visibilidade entre os colegas quando começa a usar perfume. No caso, o perfume que Geel usa.
Maite faz uma cartografia bastante escancarada da microfísica da exclusão e da submissão a que Mercedes é submetida, no lar e no trabalho. Começa com o roncar feroz do esposo, a tirar-lhe o sono, noite após noite, e avança para o facto da sua prole comer toda a comida, no pequeno almoço e no jantar, deixando-lhe apenas migalhas. Numa sequência sintomática, ela desaba a chorar quando vê a sua casa repleta de parentes e é obrigada a cozinhar para todos eles, após um dia cansativo no escritório. O companheiro abraça-a e diz que ela“está a chorar de emoção”, avesso aos reais motivos que a comovem.
Esse quadro leva Mercedes a sublimar as suas frustrações mimetizando hábitos de Geel, a quem cedeu os seus cigarros quando a romancista prestava o primeiro depoimento. Esse paralelo das duas garante uma dimensão psicanalítica provocante ao argumento de Inés Bortagaray e Paloma Sala. É pena que a fotografia burocrática de Sergio Armstrong, somada a uma direção de arte empolada, cheia de referências visuais ao cinema noir americano, trave a possibilidade de Maite em criar um quadro realista com o mesmo viço dos seus exercícios documentais. Sofre-se mais ainda com a banda-sonora insistente, que frisa os sentimentos transbordados pelo enredo de modo quase didático.





















