Sem romantizar por um só momento que seja o arquétipo do “sobrevivente”, preocupado mais em radiografar o mundo à sua volta do que em imergir nas psiques, o épico The Brutalist conversa de maneira frontal com uma linhagem vasta de escritores americanos, como John Updike (de “Rabbit, Run) e (sobretudo) Jonathan Frazen (Purity). Trava prosa com autores que analisam os Estados Unidos como um projeto funcionalista de nação. A pátria que os instiga é um sistema (natural e social) onde as entradas, os inputs (os vetores políticos), reordenam uma harmonia essencial ao funcionamento de um povo. Em Frazen, em romances como “As Correções” (2001), temos um painel que flana no Tempo, acompanhando o peso da História na construção de uma identidade de pátria (ou de sociedade) vista (pelo público leitor) a partir de vivências fugidias. Brady Corbet, ator que se lançou como cineasta em 2008, com a curta-metragem “Protect You + Me, segue essa linha de dsicussão na longa-metragem rodada em VistaVision (variante de maior resolução do 35mm) que lhe valeu o prémio de Melhor Realização em Veneza, além da distinção Fipresci. O seu interesse ao falar de um arquiteto judeu, radicado nos EUA, no pós-Guerra, ao longo de três décadas, tem mais ambição de entender como a América reage àquele homem (e o tal sujeito a ela) do que em esmiuçar as suas bravuras e feitos fora das normas humanas regradas. A jornada heroica é mais do território (dos EUA) em si do que dele. É um olhar sobre o impasse do american dream na sua base, narrado sob a ótica de quem vem de fora, um pouco como fez James Gray fez em seu (belíssimo) The Immigrant (2013).

No comando da fotografia, Lol Crawley garante a Corbet uma ginástica de ângulos (com predileção por planos-sequência) na qual a reeducação moral (e afetiva) do arquiteto László Toth (Adrien Brody, colossal em cena) passa-se gradualmente, entre alianças e pactos, ou seja, trocas e perdas. É tentador não aproximar o Raio X de um povo batido por O Brutalista do recorte feito por Christopher Nolan em Oppenheimer(2023). A batalha contra o Eixo, olhada a partir da América do Norte, já seria um ponto de interseção entre as duas produções, de valores bem distintas: Nolan teve 100 milhões de orçamento e Corbet cerca de 10 milhões. A outra aproximação é pela aposta em figuras visionárias que são, como dizia Artaud, “suicidadas pela sociedade”, alvos da pressão do Estado. De caras, uma distinção salta: o retrato de J. Robert Oppenheimer (o criador da bomba atómica) feito por Cillian Murphy tem uma curva arquetípica de heroísmo trágico, decalcada do mito de Prometeu, que dava fogo aos deuses. O físico composto por Cillian é pura potência, mesmo nas suas fases de low point, de derrocada. É apolíneo, é erótico. Já Toth nunca se mantém no lugar de vedeta, é sempre oprimido, sazonalmente impotente, arranhando uma condição de “herói passivo” (no posto de testemunha do tempo histórico), um pouco como o próprio Brody fez em The Pianist (Palma de Ouro de 2002).  

Em 1947, vindo de uma formação na Bauhaus e de uma trajetória promissora na arquitetura em Budapeste, Toth acaba em terras norte-americanas, a trabalhar para um primo (Alessandro Nivola) até cair em desgraça. É resgatado dela por um milionário interessado em visibilidade: Harrison Lee Van Buren. Se existe um sol em The Brutalisté essa figura controversa que um Guy Pearce com ares de Errol Flynn encarna com um manancial dramático que nunca demonstrou ter. É sua atuação mais luminosa.
Van Buren é a um só tempo manipulador e humanista, empático e egocêntrico. As suas muitas contradições espelham o coeficiente de desarmonia que serve de imperativo categórico ao registo kantiano de mundo encontrado por Toth na sua (sobre)vida longe da Europa. A esposa Erzsébet (Felicity Jones), que ficou na Hungria durante o jugo nazi, é trazida para o seu convívio com a ajuda de um mecenas e reaparece como uma Lady Macbeth, a instigar os piores instintos. A sequência em que clama por carinho e expõe uma rejeição, a pressionar o marido, perdoando as suas falhas, é devastadora.

Apesar das muitas destrezas que tem na estética, Toth não tem a força de Macbeth, nem os sons, nem a fúria. Ele apenas observa a derrocada de um sonho (ou melhor, de uma utopia geopolítica), enquanto desenha o protótipo de um centro de convivências.
Enquanto nos mostra as armas retóricas do protagonista, como Coppola fez com Michael Corleone em “The Godfather Part II” (1974), Corbet expõe as entranhas de uma nação que se crê progressista e inclusiva, mas reduziu o bem-estar a uma equação capitalista de posse, de monopólio.

Destaca-se no elenco a presença de Isaach de Bankolé, estro de Jim Jarmusch, como o operário Gordon, amigo leal de Toth.  A música composta por Daniel Blumberg é uma bandas sonoras mais elegantes ouvidas no cinema indie em anos.

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Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
the-brutalist-o-imperativo-categorico-da-desarmoniaApesar das muitas destrezas que tem na estética, Toth não tem a força de Macbeth, nem os sons, nem a fúria. Ele apenas observa a derrocada de um sonho (ou melhor, de uma utopia geopolítica), enquanto desenha o protótipo de um centro de convivências.