Inspirado em factos reais ocorridos na República Checa e num dos mais importantes coros femininos do país, “Broken Voices” tem surgido no Festival de Karlovy Vary não apenas como um dos mais fortes concorrentes ao Globo de Cristal, mas igualmente um projeto que pode romper as barreiras do silêncio no país, no que concerne ao movimento #metoo e ao relato de abusos que atravessaram dos tempos do comunismo até ao novo milénio, já em democracia.

Os factos que serviram de fôlego para esta realização checa de Ondřej Provazník, na sua segunda longa-metragem, levam-nos a outros tempos, os anos 90, mas foi apenas em 2004 que Bohumil Kulínský Jr. foi detido e acusado de vários atos de abuso sexual de menores, com um total de 49 vítimas entre 1984 e 2004. Condenado a três anos de prisão com pena suspensa, em 2008, ele viu posteriormente aumentada para cinco anos e meio de prisão a sentença, que começou a cumprir em janeiro de 2009. Em 2011, a escola coral Bambini di Praga foi encerrada, mas as histórias de abuso abafadas durante décadas ainda hoje ecoam em toda a sociedade checa.

Broken Voices” inspira-se neste caso para nos levar até aos anos 1990, centrando a sua atenção em Karolina (Kateřina Falbrová), uma jovem de 13 anos que, tal como a sua irmã mais velha, Lucie (Maya Kintera), de 15 anos, integra um coro que se prepara para uma digressão nos EUA. Trinta raparigas da escola são escolhidas para participar num retiro nas montanhas na Morávia, onde competem para conquistar a simpatia de Vit Mácha (Juraj Loj), um maestro implacável, que progressivamente vai-se aproximado mais e mais de Karolina, promovendo-a em detrimento das raparigas mais velhas, incluindo a sua irmã. Se a ligação familiar entre Lucie e Karolina enfraquece por causa dessa elevação da segunda no coro, aumenta o isolamento da jovem de 13 anos que, com notórias fragilidades emocionais num meio repleto de ciúmes e espírito competitivo, deixa-se levar pela manipulação do maestro e nas suas ações, que a transformam no centro do seu mundo.

Sugerindo através dos enquadramentos, dos olhares, dos gestos e dos movimentos, além de um ritmo que paulatinamente deixa os factos arderem em lume brando, Ondřej Provazník demonstra acima de tudo ter um pulso firme, contido e maduro para contar uma história complexa com tanto de perturbador como de comum, e que sabemos durou décadas sob os olhares de muitos com uma normalização e discrição silenciosa. Os abusos a ginastas norte americanas, os casos acumulados dentro da Igreja Católica e a na Meca do Cinema, Hollywood, com o caso Weinstein à cabeça, todos eles são histórias de abuso que se prolongaram durante décadas, e que demonstram uma normalização dentro de uma hierarquia bem estruturada, onde os malfeitores passaram pelas gotas da chuva sem se molhar anos a fio, sempre cobertos por uma capa de silêncio, quer das vítimas, quer dos colegas de trabalho.

Nesse sentido, Ondřej Provazník consegue nesta segunda realização, bem apoiado por um naipe de atores e não-atores que envolvem o espectador desde o início, um filme extremamente sóbrio sobre uma outra banalidade do mal, destacando-se não apenas na destreza técnica de uma produção imaculada na direção artística e de atores, mas também no espírito e atmosfera de antecipação da tempestade que a verdade e a justiça impunha.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
broken-voices-as-vozes-silenciadas-pelo-abusoSugerindo através dos enquadramentos, dos olhares, dos gestos e dos movimentos, além de um ritmo que paulatinamente deixa os factos arderem em lume brando, Ondřej Provazník demonstra acima de tudo ter um pulso firme, contido e maduro para contar uma história complexa com tanto de perturbador como de comum