Pegando num artigo que leu no jornal sobre a captura de um tubarão que tinha dentro dele uma perna humana, e começando o seu filme com uma sequência que inicialmente idealizou como uma curta-metragem, Kleber Mendonça Filho, antigo crítico de cinema transformado em realizador, trouxe até Cannes um banquete orgásmico de cinéfila, que com um indisfarçável charme e forte poder estético conquista o espectador numa jornada onde o cariz político é impulsionado pela de um modelo de thriller que é sempre livre para respeitar ou não os seus códigos.
Viajando entre dois tempos, e entre São Paulo e o Recife, as primeiras cenas deste “O Agente Secreto” levam-nos até 1977, “uma época cheia de pirraça”, como lemos na tela, onde damos de caras com Marcelo (Wagner Moura), um “refugiado” vai trabalhar no registo civil, procurando encontrar aí documentos oficiais que comprovem a existência da mãe. Ele é recebido por Dona Sebastiana, de 77 anos, dona de casa, e tem contacto com outras pessoas que se escondem de alguém, como uma dupla de angolanos que juram que se saírem do país não vão certamente fazê-lo num avião de bandeira portuguesa. E apesar de estar num período que abarca também parte da ação de “Ainda estou aqui”, de Walter Salles, “O Agente Secreto” é um objeto bem diferente.
Como que servindo como sinal que Marcelo tem de estar atento à chegada de dois matadores para o assassinar, o gato de Dona Sebastiana tem uma deformidade que faz com que tenha 2 caras. É um reflexo simbólico que Marcelo, ou Armando, como vamos descobrir mais tarde, tem de estar atento a todas as movimentações, enquanto vive com duas identidades e espera poder sair do país com o filho pequeno que, após a morte da mãe, mora com o avô.
Entre o thriller político e o delicado drama familiar na relação entre Marcelo, o filho e o sogro, Kleber brinca com o género e mergulha nos anos 70 com o seu amor (ou obsessão) pelo cinema ao rubro, explanando uma época que reflete todos os traços da ditadura militar, do coronelismo, e da dificuldade de gerir a identidade quando todos os olhos estão em cima de si.
Identidade, resistência e memória, temas recorrentes na cinematografia do cineasta, estão presentes, sempre com uma conexão à cinéfila de Kleber, num filme que até tem uma janela para o seu documentário “Retratos Fantasma” (2023). E se existe uma nostalgia pelos filmes dos anos 70, que servem de base para todo o trabalho estético e construção narrativa, além às salas de cinema que existiam na época e hoje em dia transformaram-se numa outra coisa qualquer, a vertente política não deixa saudades, sendo fundamentais os pesquisadores, como as que vemos neste filme (a segunda linha temporal), que procuram de forma forense provas de uma ditadura que não se quer repetir.
Com sequências tão surreais como a história do tubarão que deu o clique em Kleber para fazer filme, “O Agente Secreto” é uma delícia caótica de exposição de fetichismos do cineasta e cinéfilo, mas também uma viagem afetiva e política a não perder.
Texto originalmente escrito em maio de 2025




















