Quando Creepy, de Kiyoshi Kurosawa, foi exibido na Berlinale, fora de competição, em 2016, a ovação destinada a Teruyuki Kagawa foi mais intensa do que os aplausos concedidos a estrelas europeias ou americanas estandardizados por Hollywood ou pelas séries de televisão e de streaming. O aplauso, em solo alemão, respondia à habilidade desse artesão do gesto em, num simples sorriso, condensar toda a monstruosidade que a alma humana pode produzir. Ele é o psicopata por excelência do cinema comercial (e também autoral) japonês, num trabalho assente no jogo de máscaras das suas expressões.
A sua nova incursão pelos festivais do Velho Continente deu-se já na competição pela Concha de Ouro de 2025, onde assombrou San Sebastián com as identidades performativas de um assassino capaz de fingir ser muitas coisas — e muitas pessoas — no thriller SAI: Disaster, realizado e montado por Hirase Kentaro e Seki Yutaro. Mais sombria do que a figura desenhada pelo veterano nipónico é a discussão moral que o filme abre em torno do universo da Lei, ao levantar a hipótese de que a Justiça pode elevar uma mera suspeita ao estatuto de crime.
Logo no arranque da produção compreende-se o título: tudo o que vemos é atravessado pelo abalo sísmico de um terramoto e pela ameaça de um novo tremor iminente. Este Japão frio, encharcado de chuva miudinha, onde tudo é cinzento, vive na incerteza. E onde há dubiedade, há espaço para um Grand Guignol a céu aberto — um teatro de morbidades. Em SAI, o macabro manifesta-se de forma tão discreta quanto a própria sociedade de que fala: pessoas encontradas mortas em aparentes suicídios têm em comum cortes (ou aparas) muito peculiares no cabelo (ou na barba, num dos casos). É um detalhe tão microscópico que quase ninguém acredita na tese de uma investigadora (Anne Nakamura), que suspeita estar perante a ação de um anjo da morte.
Estruturado como uma minissérie televisiva e condensado em filme — num trabalho de montagem digno de ourives — SAI não brinca em serviço no desejo de oferecer a San Sebastián (e a futuras plateias) um exercício de género que respeita as convenções, ainda que trilhando caminhos mais elegantes. A banda sonora de Masayuki Toyota invoca o Mal sempre que Teruyuki Kagawa surge em cena. Ele aparece em quatro situações distintas (todas ligadas à morte): num momento é motorista, noutro barbeiro, depois professor de matemática, exímio em álgebra, e por fim instrutor de natação. O perfil muda em cada interpretação, mas o riso mefistofélico é sempre o mesmo, aberto no ponto de clímax para as vítimas. Nunca se vê a violência tingida de crueldade. O achado do guião é estruturar a dramaturgia por linhas de engano, falsas pistas, permitindo que o público construa o puzzle em torno da figura misteriosa a seu gosto.
Perante o desastre natural, como compreender a solidão que leva tantas pessoas a abrir espaço íntimo para alguém que chega como promessa de consolo e, aos poucos, se revela tóxico? É essa a reflexão que confere a SAI um pavimento existencialista, sustentado por uma engenharia de tensão avessa a fórmulas fáceis — e com um protagonista absolutamente brilhante em cena.



















