Criado em novembro de 1974 por Roy Thomas, Len Wein e John Romita para surgir como personagem secundário nas histórias do Hulk, o Wolverine — mutante dotado de poder de cura e garras afiadas — conquistou, ao longo de cinco décadas, uma popularidade comparável à de poucos heróis. Tornou-se também um símbolo, em termos sociológicos, especialmente nas periferias das nações sul-americanas. No Brasil, graças ao sucesso da série animada X-Men (1992-1997), cuja dobragem foi confiada ao dinamizador do teatro e tenor Isaac Bardavid (1931-2022), o mutante de ossatura de metal transformou-se num emblema de resistência para grupos das periferias. No Rio de Janeiro, o seu rosto furioso serve de estandarte para as turmas de bate-bolas — foliões mascarados — do carnaval suburbano. O seu nome evoca o carcaju (ou glutão), um mamífero carnívoro que habita zonas frias, como o Canadá, notório por ter uma estatura reduzida (entre 17 cm e 26 cm), desproporcional à sua ferocidade extrema. A criatura — tal como a sua representação nas bandas desenhadas da Marvel — é o sintagma de seres que, condenados a dimensões pequenas, se agigantam para sobreviver, com um fator de cura que amortiza dores e cicatriza feridas, mas não apaga mágoas. É sintomático, pois, que, já nos primeiros minutos de Cinco Tipos de Medo, um filme inserido na genealogia do thriller social, o seu protagonista, o violinista Murilo, apareça com um travesseiro com a imagem do Wolverine.

Num dos muitos momentos de viragem de um guião que é pura inquietação, Logan — a identidade secreta do personagem — será evocado mais uma vez, numa situação tão tensa que fez o 53.º Festival de Gramado rir… pouco antes de explodir numa ovação ao filme coral realizado por Bruno Bini. Última — e mais convulsiva — das seis longas-metragens de ficção em concurso no evento, esta produção de Mato Grosso (estado do Centro-Oeste do Brasil) foi a única, na disputa pelo troféu Kikito de 2025, a sair da serra gaúcha com uma ovação de pé. A arquitetura de encaixe da sua narrativa, estruturada numa montagem (assinada pelo próprio Bini) capaz de eletrizar sem entorpecer os juízos críticos, foi a principal responsável pelos aplausos… e pelos gritos de «bravo!» no Palácio dos Festivais.

Bini, conhecido por Loop (2020), adota um formato que deu fama à dupla (hoje separada) de mexicanos Alejandro González Iñárritu e Guillermo Arriaga, realizador e argumentista, respetivamente, de Babel (Prémio de Melhor Realização em Cannes, em 2006), 21 Gramas (2003) e Amores Perros (2000). O conceito de filme coral, mencionado acima, abrange produções construídas sobre núcleos de personagens distintos e autónomos que colidem sob vetores sociais. São fios descarnados que, ao entrelaçarem-se, provocam um curto-circuito na corrente sociológica habitual do cinema, simulando uma contingência dramatúrgica inaugurada no século XIX, na prosa literária, por Honoré de Balzac (1799-1850): a Comédie Humaine. A expressão refere-se a um modo de cartografar a realidade nos seus diferentes eixos, através de um prisma panóptico — ou seja, olhares de 360 graus — em que se observa um mesmo conflito por perspetivas distintas, mas complementares.

Bella Campos vive Marlene em “Cinco Tipos De Medo”

Bini vai por aí. O músico Murilo, do início deste texto, interpretado com ardor por João Vitor Silva (da série Impuros), é atropelado por “acasos” — acaso, pois sim… — ao longo de todo o filme, a partir do momento em que sai do hospital, em luto por uma perda familiar provocada pela covid-19. Conhece a enfermeira Marlene (papel de Bella Campos) durante a internação e encanta-se com a sua inteligência irreverente… potenciada por um sorriso homicida. Esse riso será determinante para a ambição existencialista de Bini, nos pontos cruciais desta vertigem que contagiou Gramado.

O riso de Marlene empalidece de medo nas sequências em que é confrontada pela sua quizila — a sua sina amaldiçoada —, o traficante Sapinho, interpretado com esplendor pelo rapper e ator Xamã. O bandido dita a lei no bairro que controla, vendendo drogas e impondo sentenças aos seus desafetos. O seu comércio de narcóticos acaba por afetar outras pessoas, como a polícia Luciana, uma valquíria taciturna encarnada por Bárbara Colen (de Bacurau), e o advogado Ivan (Rui Ricardo Dias), que tem de cuidar de um bebé sem a mínima habilidade para o fazer.

Estas cinco vidas aparentemente desconectadas colidem em fricções sociológicas motivadas pelo abandono do Estado em áreas onde a pobreza fabrica invisibilidade. Estes espaços são registados pela direção de fotografia de Ulisses Malta Jr. em enquadramentos frenéticos, semelhantes aos dos (bons) filmes crepusculares de Jason Statham (Hummingbird e Wrath of Man). Isto significa que há rudimentos da cartilha dos filmes de ação ali presentes, mas reconfigurados na voltagem política da América Latina, tal como fez Iñárritu. Ele tinha Gael García Bernal. Bini tem Xamã. E este dá sangue e corpo a uma personagem de desordem e caos. Sapinho é o cão bravo que a impunidade do Brasil soltou da coleira. Morde sem assoprar. Desperta ódios e desejo de vingança, o que se tornará o estopim dos desajustes afetivos na trama escrita pelo cineasta mato-grossense. Iñárritu também tratava de vinganças.

Os mexicanos, simbolizados na figura folclórica do Seu Madruga (Don Jamón), arlequim da série Chaves (1972-1982), defendem um aforismo usado como bordão por esta personagem: A vingança nunca é plena, mata a alma e envenena. É esse carma que assombra as almas amaldiçoadas por Sapinho. Algumas arrastam grilhões, como Luciana, mas outras anseiam por saídas. É isso que Marlene nos transmite, à força do carisma de Bella. Num plano centrado nela, Bini evoca um quadro de 1920 do suíço Paul Klee (1879–1940), Angelus Novus, ou O Anjo da História, onde vemos um querubim de pupilas escancaradas perante os horrores da Humanidade. Um horror que se dá no Tempo… que mecaniza o Tempo. Um horror colírio, que mede a dimensão da nossa tragédia fundadora nas pupilas daqueles que observam o passar dos determinismos numa sociedade assolada pela corrupção. O Anjo de Klee tem pena de nós, dos que ficam, mas voa. Marlene também… e Bella Campos voa com ela, numa escolha profissional que a amadurece.

Eis o filme (de ficção) mais audacioso de todos neste Festival de Gramado.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/raew
Pontuação Geral
Rodrigo Fonseca
cinco-tipos-de-medo-um-coro-de-vidas-a-margemSão fios descarnados que, ao entrelaçarem-se, provocam um curto-circuito na corrente sociológica habitual do cinema, simulando uma contingência dramatúrgica inaugurada no século XIX, na prosa literária, por Honoré de Balzac (1799-1850): a Comédie Humaine.