Nove anos após “Mad Max: Estrada da Fúria” e quatro décadas e meia depois do primeiro “Mad Max” nascer pelas mãos de George Miller, o australiano regressa a Cannes com todo o furor, pujança e ambição, acrescentando histórias e personagens inesquecíveis ao seu universo, que agora faz um regresso ao passado e à génese da personagem Furiosa, interpretada por Charlize Theron no filme de 2015.

É como ver uma banda de heavy metal ou rock pesado tocar como sempre, mas agora já entregue ao modelo das grandes produções de estúdios, com os riffs da realização de Miller a ecoarem a partir de colunas e ecrãs de topo de gama, manejadas pelos melhores técnicos que a indústria tem para dar. A forma artesanal e crua como a saga começou perdeu-se, mas o espírito sempre fiel aos códigos de série B, além de uma energia incomparável mantêm-se, mesmo que neste “Furiosa” a duração do filme se estenda até às 2h38, um novo recorde para a saga, que agora, e ao contrário dos filmes anteriores, acompanha 15 anos deste universo, divididos por cinco capítulos – em particular de Furiosa, agora interpretada por Alyla Browne (em criança) e Anya Taylor-Joy (jovem adulta).

Embora contenha sequências de ação verdadeiramente incríveis, daquelas que parece que comemos o pó que circula no ar nas telas, invariavelmente em terrenos desérticos carregados de hooligans plasticamente tratados com rigor e precisão,  George Miller – na sua expansão conceptual – dá tanta atenção à construção do seu mundo como à  formação da guerreira que Furiosa se tornou no capítulo anterior. Na verdade, Miller usa-a como guia para nos dar mais e mais pistas deste local distópico que denomina de Wasteland, minada de cidades estratégicas geridas por vilões assombrosos, todos entregues à sede da conquista de mais e mais poder, terras e recursos naturais.

Descobrimos assim que Furiosa, ainda em criança, nasceu numa terra de abundância cujo caminho se encontra marcado – de forma estelar – numa tatuagem do seu braço. Levada por um grupo de motards maquiavélicos ligados ao Dr. Dementus (Chris Hemsworth, na sua melhor atuação até hoje no cinema), Furiosa vai no seu percurso infantil e adolescente atravessar por vários campos de batalha, onde a Citadel e o conhecimento do Immortan Joe representa um novo poiso de estratégia para preparar a sua vingança, ou, como diz um dos títulos dos capítulos deste quinto filme da saga Furiosa, ir mesmo além dela. 

Claro está que, na gestão das expetativas, “Mad Max: Estrada da Fúria” superou qualquer um dos filmes anteriores na ambição, meios e na força do seu salto de 30 anos, acompanhado pelos enormes desenvolvimentos técnicos que surgiram durante três décadas. Já este quinto filme, com “Mad Max: Estrada da Fúria” ainda fresco na memória (“Oh, what a day. What a lovely day!” que foi este comeback), teria forçosamente de ser “Bigger, Better, Faster, Stronger” para conseguir se aproximar do impacto que teve o regresso da saga em 2015. Consegue-o, mas sentimos que mesmo com o esforço de Taylor-Joy e Chris Hemsworth, além de Lachy Hulme a substituir o falecido Hugh Keays-Byrne como Immortan Joe, Charlize Theron  e Tom Hardy, os heróis do capítulo anterior, davam outra vitalidade a este mundo distópico e aterrador. Por isso mesmo, “Furiosa: Uma Saga Mad Max” não tem a força, impacto e até o magnetismo de “Mad Max: Estrada da Fúria”, mas George Miller não descarrila no seu ato fulgurantemente arrojado de expandir o universo “Mad Max”, abrindo portas para preencher o puzzle de uma saga que permanece cada vez mais viva.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
furiosa-uma-saga-mad-max-gerir-expetativas-e-desfrutar-a-expansao-do-universo-mad-max"Furiosa: Uma Saga Mad Max” não tem a força, impacto e até o magnetismo de “Mad Max: Estrada da Fúria”, mas George Miller não descarrila no seu ato fulgurantemente arrojado de expandir o universo “Mad Max”