Recorrentes alfinetadas na Rússia, expressas por meio de notícias da Guerra da Ucrânia, levam o mundo real à fábula chapliniana que marca o regresso de Aki Kaurismäki a Cannes, sete anos depois da conquista da Carrosse d’Or na Quinzena de Cineastas, pelo conjunto de uma obra visualmente parecida a cartoons de BD, onde cada quadro parece um desenho.
O regresso dele à Croisette, na disputa pela Palma de Ouro, atende pelo título de “Fallen Leaves” (Folhas Caídas), que se remete a outono das mais variadas maneiras. É já numa idade outonal que as suas personagens sem nome esbarram: ela é vivida por Alma Pöysti e ele pelo brilhante Jussi Vatanen. Os dois são utilizados pelo cineasta em algo que ele chama de Trilogia da Classe Operária, ainda que seja uma quarta longa-metragem. As outras são “Shadows in Paradise“, “Ariel” e “The Match Factory“. Essa condição de ser o quarto elemento de uma trinca já sugere a ironia do realizador, que esbanja o seu humor bem particular por uma concisa narrativa de uma hora e 21 minutos.
Trata-se de uma “love stroy” rasgada, sem qualquer vergonha de se filiar ao género. Duas pessoas sem alento, sem dinheiro, e sem qualquer perspetiva mais ambiciosa de futuro conhecem-se num karaoke e se encantam. Ele convida-a para o cinema, para ver “The Dead Don’t Die” (2019), de Jim Jarmusch, e ela adora. Tudo parece bem, mas, como alertava o dramaturgo Jean Anouilh nos seus escritos: “Há o amor, é obvio, e há a vida, a sua inimiga“. Neste exercício de autor de Kaurismäki, de fina direção de arte, o inimigo (o impasse) é o facto do protagonista beber… e muito. Mas é o que parece. Existem outras inimizades, do mundo, em especial a falência de um amparo social que leva um europeu de baixo rendimento a afogar a sua angústia no álcool.
Aki fala da Europa, mas é um problema do mundo. A sorte é que ele é um cineasta propositivo que, no apogeu da sua carreira, vê saídas, ainda que na paixão. Cheio de canções românticas e repleto de referências a filmes de culto afetivos (como “Brief Encounter“, de David Lean), este apaixonado “Fallen Leaves” encantou Cannes pela sua aparente simplicidade. Uma joia!




















