Entrada fabulosa no campo da ficção, “Valley Of Souls”, vem inaugurar um novo capítulo na carreira de Nicolas Rincon Gille, realizador colombiano com um percurso importante no documentário enquanto ferramenta de desestabilização do real – quando se olha para os anteriores “Noche herida” e “En Lo Escondido” descobre-se aí uma filmografia que respira o rumor da noite, como se o encontro com o cinema fosse também um encontro com o lado mais oculto das coisas.
“Valley Of Souls” transporta um universo contemplativo, algures entre o sonho e o pesadelo, para um território assumidamente ficcional, mas a realidade, social e política de uma Colômbia contemporânea nunca deixa de nos interpelar. Não só pela violência da guerra civil colombiana que se assoma e pressente a cada momento, mas ainda e sempre por uma natureza em estado alucinado e implacável – essa mesma que esconde os corpos mortos nas margens dos rios, como se o lodo fosse de facto a mais doce das sepulturas. O filme de Gille acompanha um homem numa viagem ao coração das Trevas, uma última missão para trazer paz a um desgosto de pai, num arco narrativo que traz à memória o “Filho de Saul”, essa obra do húngaro László Nemes que confrontava o horror do holocausto com uma coragem marcante.
José, o protagonista de “Valley Of Souls”, continua essa linhagem de personagens que abandonam a vida – penso também no Travis, de “Paris, Texas” – e que se lançam ao abandono, nos braços de uma viagem que lhes possa trazer justiça. Depois de uma noite passada a pescar, atividade com que sustenta a família, descobre que os seus filhos desapareceram, levados por grupos de milícias, e o caudal do cinema de Gille passa por este confronto último com o destino dos filhos. Parte numa viagem à procura daquilo que pode restar dos seus corpos, e aquilo que o cinema de “Valley of Souls” nos mostra é a realidade de um mundo sempre à beira da loucura (fabuloso o tracking shot com as milícias num baile noturno, floresta dentro). É um filme belíssimo.




















