Nunca faltam neuroses, imagens de pesadelo e frequentes exageros no cinema de Ari Aster. E quando se tem nas mãos material inspirado nos tempos da pandemia Covid e na polarização política norte-americana, então tudo o que podemos imaginar será uma multiplicação prolongada dos tiques do cineasta e, talvez, algo de relevante a dizer sobre a instabilidade política, a paranoia conspiracionista, as fake news, além de questões de classe, género e raça nos EUA, pois durante a pandemia, a morte de George Floyd despoletou o Black Lives Matter, que, na cidade de Eddington, no Novo México, retratada no filme de Ari Aster, teve enormes repercussões. Porém, perante isto tudo, Aster parece não fazer nenhuma espécie de triagem. Na verdade, ele vai lançando tudo para o ecrã a grande velocidade, materializando a dicotomia de uma América fragmentada entre forças de poder republicanas e democratas, que se trucidam a cada hipótese, enquanto nos bastidores a informação e a desinformação travam uma luta desigual.

Não há nada de subtil em “Eddington”, nem tinha de haver se o objetivo final de Aster fosse o entretenimento escapista que o realizador assume no terço final através de uma explosão de violência. O problema é que esse escapismo não tem nem potência, nem espetáculo, e todas as cenas que ameaçam vir a tornarem-se icónicas, como um confronto direto entre dois protagonistas por causa do volume de som numa festa de arrecadação de dinheiro para campanha eleitoral, ou a entrada de um deles numa loja de armas para se defender de um ataque, não só morrem precocemente como cortam o ritmo de um filme que parece ter muito para oferecer, mas acaba apenas por ofertar a banalidade e alienação.

Entrando por “Eddington” adentro e dos seus conflitos, no filme de quase 2h30 estamos numa cidade onde o “Mayor” latino (Pedro Pascal) impõe as regras do uso da máscara e tenta evitar ajuntamentos, tal e qual como a governação do seu estado definiu. Do outro lado da barricada está um Xerife (Joaquin Phoenix)  que não crê que a máscara deve ser imposta pela força, escusando-se assim a atuar quando alguém se recusa a usar essa proteção mandatória. É no conflito entre os dois, acentuado por histórias antigas que ligam a atual esposa do Xerife (Emma Stone) ao Mayor, através de um alegado caso que tiveram há 20 anos, que o filme encontra o seu MacGuffin, com o Xerife a decidir candidatar-se contra o Mayor, propiciando assim um conflito entre democratas e republicanos na pacata cidade (percebemos os partidos pelas cores usadas na campanha eleitoral que se adivinha). Quando o Xerife e os seus dois súbditos começam a trabalhar na campanha eleitoral na própria esquadra, estala o caso George Floyd, o que convoca alguns ativistas na região a virem para as ruas protestar contra o racismo policial. E temos ainda antifas, múltiplas conspirações principalmente materializadas pela mãe da esposa do xerife, e um triângulo amoroso dentro de um grupo de ativistas que vai igualmente levar a comportamentos alucinantes movidos pelas trends das redes sociais. 

Como quem junta informação vinda de todos os lados num dossier para depois organizar, selecionar, catalogar e começar o trabalho de escrita para um filme, Aster parece ter evitado o organizar e selecionar. Ele parece pegar no material todo que tem e meter no guião, sem nunca passar além da superfície dos temas. Paralelamente, não aprofunda nenhuma personagem além da interpretada por Joaquin Phoenix.

A verdade é que, na sua aparente procura por chegar ao extremismo das personagens em conflito, aquilo que Aster consegue é expor os seus fetiches cinematográficos sem qualquer dose de requinte, seja na forma de comédia política negra, seja num formato de thriller de ação com sangue a jorros, num exercício de violência desproporcional que nunca surpreende. A excessiva violência nunca é um problema per se, como se vê no cinema de Tarantino, Takashi Miike, ou até em filmes que vão aos extremo distópico de olhar para a política norte-americana, como “The Purge” ou “The Hunt”. O problema concreto em “Eddington” é que a violência que Aster mostra, tal como toda a narrativa de desintegração de uma nação durante a pandemia,  na forma de alegado comentário social, acaba por se revelar vazia de significado, acrítica, pouco inteligente e ausente de espetáculo. Claro que rimos aqui e ali, dado o volume hiperbólico de temas e ações que se acumulam, mas depois de “Hereditário” e “Midsommer”, Ari Aster volta a tropeçar, tal como acontecera com “Beau Tem Medo”.

Link curto do artigo: https://c7nema.net/q59t
Pontuação Geral
Jorge Pereira
FONTECrítica originalmente escrita durante o Festival de Cannes
eddington-ari-aster-tropeca-com-satira-vazia-e-ineficazA verdade é que, na sua aparente procura por chegar ao extremismo das personagens em conflito, aquilo que Aster consegue é expor os seus fetiches cinematográficos sem qualquer dose de requinte, seja na forma de comédia política negra, seja num formato de thriller de ação com sangue a jorros, num exercício de violência desproporcional que nunca surpreende.