Realizado e escrito por Raoul Peck e narrado pelo ator Lakeith Stanfield, Ernest Cole: Lost and Found é um documento relevante, ainda que não fundamental, sobre a vida do fotógrafo sul-africano que captou a realidade brutal do apartheid para a revista Drum e para o New York Times. Tornou-se, por isso, persona non grata para o regime, sendo obrigado a fugir do país em 1966 em direção aos Estados Unidos, onde passou a retratar a realidade urbana de Nova Iorque.

Nascido no Transvaal, em 1940, e falecido em Nova Iorque em 1990, Ernest Cole viveu também longos períodos na Suécia. Foi precisamente em Estocolmo que, em 2017, foram descobertos num cofre bancário mais de 60 mil negativos de 35 mm, desaparecidos há mais de quatro décadas. Estes arquivos estão hoje a ser examinados e catalogados.

Recorrendo às fotografias de Cole, às suas próprias palavras e a testemunhos de quem o conheceu, Raoul Peck constrói um documentário que presta tributo ao fotógrafo e ativista. O filme sublinha que também na América Cole encontrou desigualdades profundas no tratamento dado aos afro-americanos, o que o levou a afirmar que a opressão contra os negros era um fenómeno global — e que, sozinho, não seria capaz de mudar as coisas. Ainda assim, tentou. O seu fotolivro House of Bondage (1967) permanece como o núcleo do seu legado e também do filme que Peck lhe dedica.

A obra segue uma estrutura mais narrativa e menos ensaística do que I Am Not Your Negro, aproximando-se antes da linha de investigação que Peck desenvolveu em Exterminate All the Brutes (HBO), onde cruzou ficção, documentário, ensaio e metaficção em torno de três conceitos-chave: civilização, colonização e extermínio. Ao centrar a sua lente na trajetória de Ernest Cole, Peck acrescenta uma nova história que dialoga com esses mesmos conceitos e prolonga a coerência do seu cinema.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
ernest-cole-lost-and-found-e-um-tributo-a-vida-trabalho-e-ativismo-do-fotojornalista-sul-africanoRecorrendo às fotografias captadas por Cole, bem como algumas das suas palavras escritas e daqueles que o conheciam e travaram relações com ele, Raoul Peck constrói uma narrativa documental de tributo ao fotógrafo e ativista