Especialmente derivado do sucesso estrondoso nas bilheteiras de biografias musicais como as em torno de Freddy Mercury (Bohemian Rhapsody, 2018) e Elton John (Rocket Man, 2019), o mercado deste subgénero de dramas explodiu, não apenas nos territórios habituais, como EUA e Reino Unido, mas um pouco por todo o lado. França não passou ao lado do fenómeno e, enquanto já se prepara um biopic em torno de Simone de Beauvoir, os gauleses já produziram – nos últimos três anos – objetos cinematográficos em torno de algumas das suas maiores figuras dos séculos XIX e XX. Exemplo disso foram os lançamentos de “De Gaulle (2020), “Eiffel (2021) e “Simone, Le Voyage Du Siècle (2021), a que se juntaram – com estreia no Festival de Cannes – “Bonnard, Pierre et Marthe” e este “L’Abbé Pierre – Une Vie De Combats”, exibidos fora de competição.

No centro do filme temos a história de Henri Antoine Groués (1912-2007), desde os tempos em que abandonou a Ordem dos Capuchinhos por causa de sua saúde frágil, em 1939, até o seu trabalho mais recente, que passou pela fundação da comunidade Emaús. Pelo caminho, embora de forma pouco equilibrada na importância e atenção que se dá a cada momento da sua vida, passamos inevitavelmente pela Segunda Guerra Mundial, a Resistência aos nazis e oposição ativa ao Holocausto, um ponto-chave para definir  o agora Abbé Pierre (nome adotado quando integrou a Resistência) como um combatente que no pós-guerra continuou em multiplas frentes a luta contra a pobreza: primeiro quando, em 1948, fundou, juntamente com Albert Camus e André Gide, o comité de apoio a Garry Davis, fundador do Movimento dos Cidadãos do Mundo, “que se opunha ao rápido aumento do egoísmo naciona”l, e um ano depois fundou o Movimento Emaús, uma organização que saiu do espectro religioso e que ainda hoje luta contra a exclusão social.

E embora sejam notáveis os momentos que o abade viveu na sua vida e o seu combate sem tréguas, o formato de 137 minutos entregues aos seus temas “mais conhecidos”, reduz este filme a um objeto normalizado dentro da cultura industrial de biopics com ambições comerciais. Por isso mesmo, a primeira parte da sua vida é tratada de forma bem apressada, até entrarmos  na criação da comunidade Emaús, a que se dedica mais tempo, mas origina redundâncias e repetições no meio de uma heroicização “santa” da qual saíra um homem combatente, mas falível.

Benjamin Lavernhe cumpre no protagonismo, sendo bem acompanhado pelo inevitável brilho de Emmanuelle Bercot. Mas embora este “L’Abbé Pierre – Une Vie De Combats” sirva de aperitivo para estimular a procura de mais e mais sobre a vida da personalidade retratada, por outras vias como a literatura, o filme sabe sempre a pouco. Nesse aspecto, existem similaridades na sua construção a “Simone, Le Voyage Du Siècle”, da abordagem musical épica da banda-sonora, ao ambiente académico da direção de fotografia e montagem, tudo elementos ao serviço de uma gímnica narrativa de um enorme flashback da vida de uma figura que, durante décadas, foi a preferida dos franceses.

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Pontuação Geral
Jorge Pereira
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